• Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.

    Mateus 5:44,45

  • Disse-lhes ele: Por causa da vossa pouca fé; pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível

    .

    Mateus 17:20

  • Qual de vós é o homem que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, e não vai após a perdida até que a encontre?

    Lucas 15:4

  • Então ele te dará chuva para a tua semente, com que semeares a terra, e trigo como produto da terra, o qual será pingue e abundante. Naquele dia o teu gado pastará em largos pastos.

    Isaías 30:23

  • As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem;

    João 10:27

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Verso do dia

Elias e a reencarnação

Escrito por  Gustavo
O traslado de Elias

Sempre que se discute se a Bíblia dá suporte ao espiritismo ou não, é comum que as palavras de Jesus sobre João Batista ser Elias sejam citadas. Isto acontece por que a doutrina da reencarnação, ou princípio da pluralidade das existências como eles a definem, é uma das suas doutrinas mais fundamentais. Estas palavras de Jesus estão registradas no evangelho de Mateus:


(Mt 11:12) E desde os dias de João, o Batista, até agora, o reino dos céus é tomado a força, e os violentos o tomam de assalto.

(Mt 11:13) Pois todos os profetas e a lei profetizaram até João.

(Mt 11:14) E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir.

Quando Jesus diz que João Batista é o Elias que deveria vir, os espíritas entendem que Jesus estava ensinando que João Batista é a reencarnação de Elias. Allan Kardec, conhecido por eles como codificador da doutrina espírita, diria o seguinte sobre a passagem:

Elias já voltara na pessoa de João Batista. Seu novo advento é anunciado de modo explícito. Ora, como ele não pode voltar, senão tomando um novo corpo, aí temos a consagração formal do princípio da pluralidade das existências1.

Para Kardec, a declaração de Cristo aqui é explícita. Em outro lugar ele declara também que ela não poderia ser entendida de forma alegorizada:

Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de S. Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva2.

Estariam os espíritas certos em acreditar que esta declaração endorsa a reencarnação? Jesus estaria ensinando que Elias havia se reencarnado em João Batista? O objetivo deste texto é analisar a interpretação e verificar se ela pode realmente ser sustentada.

Os últimos dias de Elias

Obviamente uma condição para que alguém se reencarne é estar morto. Podemos perceber isto em outro trecho dos escritos de Kardec:

134. Que é a alma?

Um Espírito encarnado.”

a) — Que era a alma antes de se unir ao corpo?

Espírito.”

b) — As almas e os Espíritos são, portanto, idênticos, a

mesma coisa?

Sim, as almas não são senão os Espíritos. Antes de se unir ao corpo, a alma é um dos seres inteligentes que povoam o mundo invisível, os quais temporariamente revestem um invólucro carnal para se purificarem e esclarecerem.”3.

O espírito segundo Kardec, se une ao corpo de forma temporária, para se purificar e se esclarecer. Para que João Batista seja então a reencarnação de Elias, é necessário primeiramente que Elias estivesse morto. Deste modo, o espírito de Elias poderia se unir ao novo corpo dando origem à pessoa que conhecemos como João Batista.

Mas é bastante questionável dizer que Elias teria morrido. No texto de 2 Reis 2, temos a descrição dos últimos dias de Elias na terra:

(2Re 2:8) Então Elias tomou a sua capa e, dobrando-a, feriu as águas, as quais se dividiram de uma à outra banda; e passaram ambos a pé enxuto.

(2Re 2:9) Havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que eu te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja sobre mim dobrada porção de teu espírito.

(2Re 2:10) Respondeu Elias: Coisa difícil pediste. Todavia, se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará; porém, se não, não se fará.

(2Re 2:11) E, indo eles caminhando e conversando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.

(2Re 2:12) O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai! o carro de Israel, e seus cavaleiros! E não o viu mais. Pegou então nas suas vestes e as rasgou em duas partes;

(2Re 2:13) tomou a capa de Elias, que dele caíra, voltou e parou à beira do Jordão.

Esta não é uma descrição de morte. O texto descreve como Elias foi levado vivo ao céu, num redemoinho. Este tipo de evento é conhecido como traslado.

Esta não é a primeira vez que a Bíblia fala de alguém ser trasladado. O primeiro homem trasladado é Enoque, como descreve Gênesis:

(Gn 5:23) Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos;

(Gn 5:24) Enoque andou com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus o tomou.

O texto diz que Deus tomou Enoque, e nos dá uma informação a mais: Enoque não apareceu mais. Este era o indício que Enoque havia sido trasladado. O Novo Testamento posteriormente deixa este fato mais claro, ao dizer:

(Hb 11:5) Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte; e não foi achado, porque Deus o trasladara; pois antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus.

Não só o autor de Hebreus deixa claro aqui que Enoque foi trasladado e não foi mais encontrado, mas indica os motivos para ter sido trasladado: para não ver a morte. Isto deixa claro que aqueles que são trasladados não morrem. Isto é muito importante para o tema que estamos discutindo, pois se Elias foi trasladado, ele não teria visto a morte, e assim, não poderia se reencarnar em João Batista.

Teria Elias então sido trasladado? Tudo indica que sim. Elias foi levado ao céu em uma carruagem de fogo. O texto é claro ao dizer que o destino de Elias foi o céu, não outra localidade. Além do mais, o texto adiciona algumas informações muito interessantes sobre o evento. Observe:

(2Re 2:15) Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte dele em Jericó, disseram: O espírito de Elias repousa sobre Eliseu. E vindo ao seu encontro, inclinaram-se em terra diante dele.

(2Re 2:16) E disseram-lhe: Eis que entre os teus servos há cinquenta homens valentes. Deixa-os ir, pedimos-te, em busca do teu senhor; pode ser que o Espírito do Senhor o tenha arrebatado e lançado nalgum monte, ou nalgum vale. Ele, porém, disse: Não os envieis.

(2Re 2:17) Mas insistiram com ele, até que se envergonhou; e disse-lhes: Enviai. E enviaram cinquenta homens, que o buscaram três dias, porém não o acharam.

(2Re 2:18) Então voltaram para Eliseu, que ficara em Jericó; e ele lhes disse: Não vos disse eu que não fôsseis?

Este evento ocorre logo após a assunção de Elias aos céus. Podemos ver pelo relato que Eliseu estava plenamente convencido de que ninguém poderia encontrar Elias. E após a insistência daqueles homens, Eliseu permitiu que procurassem por Elias, sendo que esta busca não deu o resultado esperado por eles. Elias não havia sido encontrado. Exatamente a característica que os relatos do traslado de Enoque destacam.

Como podemos ver, o texto é bastante claro sobre o assunto, especificando que Elias foi levado ao céu (não qualquer outro lugar na terra) e depois disto nunca mais foi visto. Os judeus ao tratarem do assunto confirmam o traslado de Elias. O historiador judeu Flávio Josefo em sua História dos Hebreus, por exemplo, coloca Elias ao lado de Enoque:

Fora isso, ele era muito hábil. Foi sob o seu reinado que Elias desapareceu, sem que jamais se tenha podido saber o que aconteceu a ele. Ele deixou, como já disse, Eliseu, seu discípulo. E bem podemos ver nas Sagradas Escrituras que Elias e Enoque, o qual viveu antes do dilúvio, desapareceram do meio dos homens, mas nunca se soube que tenham morrido.4

Além de Flávio Josefo, o Talmude Babilônico possui um tratado chamado Derekh Eretz Zutta, que lista as pessoas que não morreram:

Alianças foram feitas com sete patriarcas, e eles são: Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Aarão, Finéias e Davi – Abraão [Gn. 15:18], Isaque [ibid. 17:21], Jacó [Lv 26:421, Moisés [Êx 34:271, Aarão [Nm 18:19], Finéias [ibid. 25:12], Davi [Sl 89:41. Sete patriarcas estão descansando na glória, e vermes não afetam seus restos terrenos, e eles são: Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Aarão, Anrão o pai deles; e, de acordo com outros, também Davi, como está escrito [ibid. 16:9]: "Porquanto está alegre o meu coração e se regozija a minha alma; também a minha carne habitará em segurança". Nove entraram o Jardim do Éden enquanto eles ainda estavam vivos, e eles são: Enoque (Chanoch) o filho de Jared, Elias Messiah, Eliézer o servo de Abraão, Hirão o rei de Zor, Ebede-Meleque o etíope [Jr 38:7], e Jabetz o filho de R. Jehudah o Príncipe, Bothiah a filha de Faraó e Serech a filha de Ascher, e, de acordo com outros, também R. Jehoshua b. Levi.5

Os próprios judeus acreditavam portanto no traslado de Elias. Embora o texto seja claro e as referências também, muitos espíritas tentam manter a relação de Elias e João Batista já defendida por Kardec, usando alguns argumentos básicos.

Argumento 1: Elias teria enviado uma carta depois a Jeorão

Uma das estratégias adotadas por espíritas para negar que Elias tenha sido trasladado é se referir ao texto de 2 Crônicas 21, onde se descreve que Elias teria enviado uma carta a Jeorão:

(2Cr 21:11) Ele fez também altos nos montes de Judá, induziu os habitantes de Jerusalém à idolatria e impeliu Judá a prevaricar.

(2Cr 21:12) Então lhe veio uma carta da parte de Elias, o profeta, que dizia: Assim diz o Senhor, Deus de Davi teu pai: Porquanto não andaste nos caminhos de Jeosafá, teu pai, e nos caminhos de Asa, rei de Judá;

(2Cr 21:13) mas andaste no caminho dos reis de Israel e induziste Judá e os habitantes de Jerusalém a idolatria semelhante à idolatria da casa de Acabe, e também mataste teus irmãos, da casa de teu pai, os quais eram melhores do que tu;

(2Cr 21:14) eis que o Senhor ferirá com uma grande praga o teu povo, os teus filhos, as tuas mulheres e toda a tua fazenda;

(2Cr 21:15) e tu terás uma grave enfermidade; a saber, um mal nas tuas entranhas, ate que elas saiam, de dia em dia, por causa do mal.

Como este evento teria acontecido depois do evento relatado em 2 Reis 2, ele só poderia indicar que Elias estaria ainda na terra, sendo capaz de escrever e enviar cartas. Sendo assim, há alguns que ainda fazem o paralelo desta passagem com o arrebatamento de Filipe, em Atos 8:

(At 8:39) Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco, que jubiloso seguia o seu caminho.

Como esta carta de Elias então chegou a Jeorão? Será que este texto nega que Elias teria sido trasladado? O comentário bíblico de Keil & Delitzsch traz uma extensa discussão sobre o assunto:

מִכְתָב, escrito, é uma ameaça profética escrita, na qual seus pecados são apontados a Jeorão, e o castigo divino para eles são anunciados. A respeito desta declaração, não precisamos ficar surpresos por nada ser disto em outro lugar para nós de qualquer profecia escrita de Elias; pois nós não temos relatos circunstanciais de sua atividade profética, pela qual nós devemos estimar as circunstâncias que podem tê-lo induzido nesta instância particular a escrever sua profecia. Mas, por outro lado, é bastante questionável se Elias estava ainda vivo no reino de Jeorão de Judá. Seu traslado para o céu é narrado em 2 Reis 2, entre o reino de Acazias e Jeorão de Israel, mas o ano do evento não é declarado em nenhum lugar nas Escrituras. Na crônica judaica de Seder olam, 2Cr 17:45, é de fato colocado no segundo ano de Acazias de Israel; mas esta declaração não está fundamentada em tradição histórica, mas em uma mera dedução do fato de que seu traslado é narrado em 2 Reis 2 imediatamente depois da morte de Acazias; e o último ato de Elias que temos qualquer registro (2 Reis 1) cai no segundo ano daquele rei. Lightfoot, de fato (Opp. i. p. 85), Ramb., e Dereser concluíram de 2Re 3:11 que Elias foi levado da terra no reino de Jeosafá, porque de acordo com aquela passagem, na campanha contra os Moabitas, conduzida em companhia de Jeorão de Israel, Jeosafá perguntou por um profeta e recebeu a resposta que Eliseu estava ali, que havia deitado água nas mãos de Elias. Mas a única conclusão que pode ser obtida é que, naquele campo, ou próximo dele, estava Eliseu, o servo de Elias, não que Elias não estava mais na terra. O perfeitoיָצַק אֲשֶׁר parece de fato implicar isto; mas é questionável se nós podemos pressionar assim o perfeito, ou seja, se quem falou fez uso dele, ou se ele foi empregado somente pelo historiador posteriormente. As palavras são meramente uma perífrase para expressar a relação de mestre e servo que Eliseu tinha com Elias, e nos diz apenas que o primeiro era criado de Elias. Mas Eliseu entrou nesta relação com Elias muito antes da partida de Elias da terra (1Re 19:19). Elias poderia então estar vivo durante o reinado de Jeorão de Judá; e Berth. consequentemente acha “antes disto provável que ele falou dos pecados de Jeorão, e o ameaçou com punição. Mas a carta”, assim ele diz depois, “é formulada em termos tão gerais, e dá, além do mais, meramente uma explicação profética das desgraças que Jeorão foi visitado”, daí nós poderíamos concluir que em sua presente forma é o trabalho de um historiador vivendo em um tempo posterior, que descreve a relação de Elias e Jeorão em poucas palavras, e de acordo com seu conceito dela como um todo. Este julgamento descansa em bases dogmáticas, e flui de um princípio que rejeita reconhecer qualquer predição sobrenatural nas declarações proféticas. O conteúdo da carta pode ser considerado como uma exposição profética das desgraças que se desenrolaram, como foram, sobre Jeorão, somente por aqueles que negam à priori que há qualquer predição especial nos discursos dos profetas, e mantém que todas as profecias que as contém como sendo vaticinia post eventum. De qualquer forma maior peso é dado à objeção contra a visão de que Elias estava na terra ainda, que o efeito das ameaças divinas teriam uma impressão mais profunda sobre Jeorão pelo próprio fato de que a carta veio de um profeta que não estava mais na vida, e seria assim mais fácil trazê-lo ao conhecimento de que o Senhor é o Deus vivente, que tinha em suas mãos seu fôlego e todos os seus caminhos, e que sabia todos os seus atos. Assim o escrito golpearia a consciência de Jeorão como uma voz do outro mundo (Dächsel). Mas todo este destaque se acha somente sobre conjecturas subjetivas e pressuposições, pelas quais reais analogias estão faltando.

Pela mesma razão nós não podemos considerar o destaque de Menken como se aproximando do ponto, quando ele diz: “Se um homem como Elias fosse falar novamente sobre a terra, depois de ter sido retirado dela, ele deve fazê-lo das nuvens: isto se harmonizaria com todo o esplendor de seu curso em vida; e, em minha opinião, isto é o que de fato aconteceu”. Pois apesar de nós não nos arriscarmos “demarcar os limites aos quais o poder e esfera de atividade dos santos aperfeiçoados estão estendidos”, no entanto não estamos apenas justificados, mas também obrigados ao dever de julgar aqueles fatos da revelação que são susceptíveis a diferentes interpretações, de acordo com a analogia de toda a Escritura. Mas as Escrituras do Velho e Novo Testamento não conhecem nada sobre qualquer comunicação por escrito entre os aperfeiçoados santos no céu e homens; de fato, elas ensinam o contrário na parábola do homem rico (Lc 16:31).

Não há consequentemente nenhuma base suficiente para acreditar que o Elias glorificado ou enviou uma carta a Jeorão do céu por um anjo, ou comissionou qualquer pessoa vivente a escrever a carta. A declaração da narrativa, “ali veio a ele um escrito de Elias o profeta”, não pode ser bem entendida de forma a significar qualquer coisa além de que Elias escreveu a profecia ameaçadora que se segue; mas nós não temos prova certa de que Elias não estava então mais vivo, mas que fora recebido no céu. O tempo de seu traslado não pode ser exatamente fixado. Ele ainda estava vivo no segundo ano de Acazias de Israel; por ele anunciou a este rei em seu leito de morte que ele morreria daquela doença (2 Reis 1). Mais provavelmente ele ainda estava vivo também no começo do reino de Jeorão de Israel, que ascendeu ao trono vinte e três anos depois de Acabe. Jeosafá morreu seis ou sete anos depois; e depois de sua morte, seu sucessor Jeorão matou seus irmãos, os outros filhos de Jeosafá. Elias pode ter vivido para ver a perpetração deste crime e pode consequentemente também ter enviado a profecia ameaçadora que está em discussão para Jeorão. Quando ele apareceu primeiro sob Acabe, na suposição acima, ele teria ocupado o ofício de profeta por cerca de 30 anos; enquanto seu servo Eliseu, a quem ele escolheu para ser seu sucessor logo no reino de Acabe (1Re 19:16), morreu apenas sob Jeoás de Israel (2Re 13:14), que se tornou rei cinquenta e sete anos depois da morte de Acabe, e deve consequentemente ter desempenhado as funções de profeta pelo menos por sessenta anos. Mas mesmo que nós suponhamos que Elias tenha sido levado da terra antes da morte de Jeosafá, nós podemos com Buddaeus, Ramb., e outros comentaristas, aceitar esta explicação: que o Senhor revelou a ele o pecado de Jeorão antes de seu traslado, e o comissionou a anunciar a Jeorão por escrito o castigo divino que se segue, e enviar este escrito a ele no tempo apropriado. Isto se harmonizaria completamente com o modo de ação deste grande homem de Deus. Para ele Deus revelou a elevação de Jeú ao trono de Israel, e a extirpação da casa de Acabe por ele, juntamente com a ascensão de Hazael, e as grandes opressões que ele infligiria a Israel – todos eventos que aconteceram somente depois da morte de Jeorão de Judá. A ele também Deus comissionou mesmo sob Acabe a ungir Jeú como rei sobre Israel (1Re 19:16), que Eliseu fez ser cumprido por um estudioso profético quatorze anos depois (2Re 9:1); e a ele o Senhor poderia também ter revelado a iniquidade de Jeorão, sucessor de Jeosafá, mesmo tão cedo quanto no segundo ano de Acazias de Israel, quando ele anunciou a este rei sua morte sete anos antes da morte de Jeosafá, e poderia ter então comissionado ele a anunciar a punição divina de seu pecado. Mas se Elias comissionou a unção de tanto Hazael e Jeú a seu servo Eliseu, por que não poderia ele também ter comissionado a ele a entrega desta profecia ameaçadora que ele colocou por escrito? Sem oferecer como suporte o fato de que o conteúdo da carta teria um grande efeito, já que pareceria que o homem de Deus estava falando do túmulo (O. v. Gerlach), nós temos ainda o perfeito direito de supor que uma palavra escrita do terrível homem que o Senhor confirmou como Seu profeta pelo fogo do céu, em sua batalha contra a adoração de Baal sob Acabe e Acazias, seria muito mais adequada para fazer impressão em Jeorão e sua esposa Atalia, que estavam caminhando nas pegadas de sua mãe Jezebel, do que uma palavra de Eliseu, ou qualquer outro profeta que não estava favorecido com o espírito e poder de Elias.6

Como podemos ver acima, muitas explicações lógicas podem ser dadas ao fato. Poderíamos começar mencionando o fato de que Elias poderia muito bem ter escrito a profecia do céu e pedido para um anjo enviá-la. O autor do comentário descarta esta possibilidade pois ele acredita que a comunicação entre vivos e mortos é negada pela Bíblia. Mas o próprio espírita reconhece que tal comunicação é possível, então ele não poderá negar esta possibilidade, mesmo por que, Elias não estaria exatamente morto.

Por outro lado, estamos tratando de um profeta. Nada impede que ele tenha previsto os pecados de Jeorão e deixado uma carta para ser entregue no momento apropriado, como o comentário acima conclui. O texto bíblico não nos dá indícios sobre como foi escrita, quando foi escrita ou onde foi escrita. O texto não nos diz como foi entregue. O foco do texto é apenas o conteúdo e o remetente.

Assim, quando o espírita usa este texto para alegar que Elias estava ainda na terra, ele tem que confiar muito mais em suas próprias explicações de como a carta foi escrita, quando foi escrita e onde foi escrita, do que no texto em si. O texto serve apenas como uma brecha para negar aquilo que o texto de 2 Reis 2 nos diz de forma clara.

Além disto, o paralelo com Atos 8 não ajuda o espírita. Assim como o texto de 2 Reis 2 diz claramente que o destino de Elias foi o céu, o texto de Atos também dá o destino de Filipe:

(At 8:40) Mas Filipe achou-se em Azoto e, indo passando, evangelizava todas as cidades, até que chegou a Cesaréia.

O destino de Filipe foi um lugar na terra, e não o próprio céu como no caso de Elias. Filipe depois deste evento ainda foi visto evangelizando cidades, mas Elias nunca mais foi visto. O paralelo mostra que Elias passou por algo muito diferente de Filipe.

Argumento 2: Jesus diz que ninguém subiu aos céus

Outro ponto levantado pelos espíritas contra o traslado de Elias é o que Jesus diz a Nicodemos em João 3:

(Jo 3:13) Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem.

Com estas palavras, o espírita então pergunta: Se o próprio Cristo nos diz que ninguém subiu aos céus, por que devemos acreditar então que Elias subiu para lá?

O grande problema de se usar textos-prova para a argumentação é que muitas vezes a má compreensão de todo o contexto que aquele texto-prova se encontra é passado para os leitores. Há casos onde o uso de textos-prova é inevitável, mas devemos sempre ter o cuidado de citá-lo de forma a não contrariar o contexto que ele se encontra.

Este é o caso do texto citado pelos espíritas. Jesus estava ali falando sobre quais pessoas foram para o céu ou não? Vamos entender o texto, que começa dizendo:

(Jo 3:1) Ora, havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus.

(Jo 3:2) Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és Mestre, vindo de Deus; pois ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.

Aqui vemos uma descrição deste homem chamado Nicodemos. Ele era um dos principais dos judeus, e foi se encontrar com Jesus à noite. Provavelmente ele não desejava ser visto com Jesus, temendo que seu posto de prestígio fosse ameaçado. Mas, o que desejava este homem? O texto não nos informa, mas provavelmente está relacionado com a resposta de Jesus. Nicodemos cumprimenta Cristo, reconhecendo nele um mestre vindo de Deus, e apontando os milagres que Jesus fazia. Seu ponto de vista sobre Cristo ainda era muito deficiente. Talvez ele tivesse a ideia comum na época que o Cristo enviado por Deus fosse um rei que libertaria a nação de Israel, e estivesse ali para checar se Jesus era este rei. Por isto talvez é que Cristo responde a ele:

(Jo 3:3) Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.

Nicodemos estava ali talvez para ver um reino terreno. Mas Cristo estava preocupado com o reino celestial. Milagres podem atestar que Cristo é enviado de Deus, mas é necessário um novo nascimento para que a pessoa veja o reino de Deus em sua plenitude. Mas Nicodemos não entendia isto ainda, e por isto sua próxima pergunta revela um total desconhecimento do assunto:

(Jo 3:4) Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?

Notem aqui como o mal entendido de Nicodemos é exatamente o mal entendido de espíritas sobre a declaração de Cristo no versículo anterior. Estaria Jesus falando sobre a reencarnação? Como poderia um homem voltar ao útero de sua mãe? Jesus então reafirma o que havia dito, com palavras mais claras:

(Jo 3:5) Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.

Este versículo é muito bem explicado por Calvino em seus comentários:

Nós sempre devemos ter em mente a intenção de Cristo, que nós já explicamos; a saber, que ele queria exortar Nicodemos à renovação de vida, porque ele não era capaz de receber o Evangelho, até que ele começasse a ser um novo homem. É então uma simples declaração, que nós devemos nascer de novo, para que nós possamos ser os filhos de Deus e que o Espírito Santo é o Autor deste segundo nascimento. Pois enquanto Nicodemos estava sonhando com a regeneração (παλιγγενεσία) ou transmigração ensinada por Pitágoras, que imaginou que as almas, depois da morte de seus corpos, passavam para outros corpos, Cristo, para curá-lo de seu erro, adicionou, como forma de explicação, que não é de forma natural que homens nascem uma segunda vez, e que não é necessário para eles serem revestidos com um novo corpo, mas que eles são nascidos quando são renovados em mente e coração pela graça do Espírito.

Consequentemente, ele empregou as palavras Espírito e água para significarem a mesma coisa, e isto não deve ser considerado como uma interpretação forçada; pois esta é uma forma frequente e comum de falar nas Escrituras, quando o Espírito é mencionado, adicionar a palavra água ou fogo, expressando seu poder. Nós algumas vezes nos deparamos com a declaração, que é Cristo que batizou com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3:11; Lc 3:16), onde fogo significa nada diferente do Espírito, mas somente mostra qual é sua eficácia em nós. Quanto à palavra água ser colocada primeiro, isto é de pequena consequência; ou melhor, este modo de falar flui mais naturalmente que o outro, porque a metáfora é seguida por uma declaração clara e direta, como se Cristo tivesse dito que nenhum homem é um filho de Deus até que ele seja renovado pela água, e que esta água é o Espírito que nos purifica e que, espalhando sua energia sobre nós, transmite para nós o rigor da uma vida celestial, apesar de nós por natureza sermos totalmente secos. E mais apropriadamente emprega Cristo, para reprovar Nicodemos por sua ignorância, uma forma de expressão que é comum nas Escrituras; pois Nicodemos teria reconhecido amplamente, já que o que Cristo falou foi tirado da doutrina comum dos Profetas.

Por água, então, se quer dizer nada mais do que a purificação e revigoramento interior que é produzido pelo Espírito Santo. Além disto, não é incomum empregar a palavra ao invés do que é, quando a última cláusula tem intenção de explicar a primeira. E a visão que eu tomei é suportada pelo que se segue; pois quando Cristo imediatamente procede para atribuir a razão pela qual nós devemos nascer de novo, sem mencionar a água, ele mostra que a renovação de vida que ele requer é produzida pelo Espírito somente; daí se segue que a água não deve ser separada do Espírito7.

É neste nascimento sobrenatural então que Jesus se concentra nos próximos versículos:

(Jo 3:6) O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.

(Jo 3:7) Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo.

(Jo 3:8) O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

Então, por fazer o contraste entre nascer da carne e nascer do espírito, Jesus está negando que o novo nascimento ao qual ele se referiu é algo parecido com a reencarnação. O que Jesus aqui prega é a regeneração que o Espírito Santo produz no fiel. E este novo nascimento não é algo que pode-se perceber visivelmente, assim como não podemos ver o vento. Só podemos perceber evidências desta regeneração, assim como nós só percebemos o vento quando ele produz barulho nas árvores.

Nicodemos no entanto, não havia entendido isto ainda. Como o começo do capítulo denuncia, Nicodemos dá muita ênfase ao que é visível.

(Jo 3:9) Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode ser isto?

Jesus então repreende Nicodemos por não saber destas coisas, mesmo sendo mestre em Israel. Parece que a posição que Nicodemos tanto tentava proteger, vindo à noite para se encontrar com Cristo, não significava muita coisa.

(Jo 3:10) Respondeu-lhe Jesus: Tu és mestre em Israel, e não entendes estas coisas?

(Jo 3:11) Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testemunhamos o que temos visto; e não aceitais o nosso testemunho!

(Jo 3:12) Se vos falei de coisas terrestres, e não credes, como crereis, se vos falar das celestiais?

Assim, Jesus dá inicio ao argumento de onde os espíritas pinçam o versículo acima. A primeira premissa que Cristo apresenta é “dizemos o que sabemos e testemunhamos o que temos visto”. Obviamente só podemos testemunhar aquilo que vemos. Jesus falava de coisas terrestres no sentido de empregar coisas terrestres como figuras. Jesus falou de como notamos a presença do vento pelo seu barulho e não por vermos ele. Como o vento é algo que tanto Jesus como Nicodemos experimentam através dos sentidos, a comunicação através daquelas figuras era possível. Mas Nicodemos não acreditava nem através destas figuras. Nicodemos tinha que tentar entender o ensino de Cristo através daquelas figuras, pois:

(Jo 3:13) Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem.

Ninguém tinha experiência das coisas celestiais como Jesus. Como ele poderia ensinar sobre as coisas celestiais de forma direta? Nicodemos só poderia entender o ensino de Cristo através daquelas figuras. E assim, Cristo dá continuidade ao seu ensino de como o ser humano é salvo pela fé.

Como vimos acima, o texto não está falando sobre a humanidade em geral, mas sobre aqueles que estão ouvindo o ensino de Cristo. Aquelas pessoas nunca foram ao céu, então Jesus não poderia ensiná-las sem figuras terrestres. Mas e se adotássemos o entendimento espírita acima, o qual diz que Jesus estava falando que nenhum ser humano na história teria ido ao céu? Como isto se harmoniza com o argumento que Jesus dá a Nicodemos? Faz algum sentido interromper a repreensão a Nicodemos por não entender aquelas palavras sendo mestre em Israel, para dizer que ninguém na humanidade foi para o céu, e depois retomá-lo? Levando-se ainda em conta que os judeus acreditavam que algumas pessoas como Enoque e Elias foram trasladados e que Jesus sabia disto, já que conhecia as Escrituras, como é que Jesus poderia dizer algo assim sem dar explicações adicionais?

Os espíritas dão grande valor às palavras de Jesus e isto é louvável. Mas as escolhas que fazem para o texto acabam minando toda a credibilidade de nosso Mestre.

Por este motivo textos-prova devem ser acompanhados, sempre que possível, de uma explicação do contexto.

Argumento 3: a profecia deveria se cumprir literalmente

O terceiro ponto que espíritas costumam levantar é a própria profecia sobre Elias. Ela se encontra em Malaquias:

(Ml 4:5) Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor;

(Ml 4:6) e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição.

Para eles, a profecia deve se cumprir literalmente. O mesmo pode ser visto nas palavras de Kardec que já reproduzimos acima.

O que significa então “se cumprir literalmente”? Para o espírita a profecia só poderia ser literalmente cumprida se o espírito de Elias voltasse à terra, se reencarnando. Neste caso haveria a garantia da identidade pessoal entre Elias e João Batista.

No entanto, se o próprio Elias não morreu, mas foi levado vivo ao céu, por que não dizer então que este cumprimento literal não seja a volta de Elias de corpo e alma? Provavelmente era isto que os judeus esperavam, demonstrando isto ao questionar João Batista:

(Jo 1:21) Ao que lhe perguntaram: Pois que? És tu Elias? Respondeu ele: Não sou. És tu o profeta? E respondeu: Não.

As pessoas que perguntaram isto para João Batista eram sacerdotes e levitas, que não acreditavam na reencarnação. Portanto eles queriam saber se João Batista era o próprio Elias. Entendendo o qual era a dúvida daqueles judeus, João respondeu de forma apropriada: não, ele não era Elias literalmente. Poderia ter admitido ser Elias com algumas ressalvas, já que tinha consciência de sua identidade (João 1:23).

Por outro lado Cristo afirmou que João era o Elias que havia de vir. É esta declaração que os espíritas dão ênfase para argumentar que João deveria ser literalmente Elias. Se Jesus diz uma coisa e João Batista diz outra, devemos dar preferência ao que Jesus diz, certo? Na verdade, não precisamos adotar este caminho. As palavras de Jesus de fato apontam para alguma identidade, mas esta identidade não é necessariamente uma identidade pessoal.

Como é geralmente ignorado pelos espíritas que mencionam a literalidade desta profecia, é o anjo Gabriel quem nos dá a interpretação dela:

(Lc 1:13) Mas o anjo lhe disse: Não temais, Zacarias; porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João;

(Lc 1:14) e terás alegria e regozijo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento;

(Lc 1:15) porque ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho, nem bebida forte; e será cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe;

(Lc 1:16) converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus;

(Lc 1:17) irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo apercebido.

É Gabriel portanto que nos explica por que João Batista é chamado de Elias. Pois ele estará no espírito e poder de Elias e é esta a identidade comum que João Batista e Elias compartilham. O comentário de Keil & Delitzsch novamente nos ajuda:

A identidade do profeta Elias como o mensageiro mencionado em Malaquias 4:1, a quem o Senhor enviaria perante Ele, é universalmente reconhecido. Mas há uma diferença de opinião sobre a questão, quem é o Elias mencionado aqui? A noção é bem antiga, e uma bem difundida entre os rabinos e pais, de que o profeta Elias, que foi levado ao céu, iria reaparecer (compare a história da exposição de nosso verso na tradução Hengstenberg's Christology, vol. iv. p. 217). A LXX pensou nele, e traduziuלִיָּה הַנָּבִיא para Ἠλίαν τὸν Θεσβίτην; também o fez Siraque (48:10) e os Judeus no tempo de Cristo (Jo 1:21; Mt 17:10); e também Hitzig, Maurer, e Ewald nos tempos mais recentes. Mas esta visão está provada errada por passagens como Os 3:5; Ez 34:23; Ez 37:24 e Jr 30:9, onde o envio de Davi o rei como o verdadeiro pastor de Israel é prometido. Assim como nestas passagens nós não podemos pensar no retorno ou ressurreição de Davi que há muito havia morrido; mas em um rei que irá reinar a nação de Deus na mente e espírito de Davi; assim Elias ser enviado pode simplesmente ser um profeta com o espírito e poder de Elias o Tisbita. O segundo Davi era de fato da família de Davi, porque à semente de Davi foi prometido a possessão eterna do trono. O chamado profético, por outro lado, não era hereditário na casa do profeta, mas se baseava unicamente na escolha divina e doação do Espírito de Deus; e consequentemente por Elias nós não devemos entender um descendente da linha do Tisbita, mas simplesmente um profeta em quem o espírito e poder de Elias são revividos, como Efrem o Sírio, Lutero, Calvino, e a maioria dos comentadores Protestantes tem mantido. Mas a razão pela qual este profeta é chamado de Elias deve ser visto não somente no fato de que Elias foi chamado para seu trabalho como reformador em Israel em um período que estava destituído de fé e de verdadeiro temor a Jeová, e que imediatamente precedeu um terrível julgamento (Koehler), mas também e mais especialmente no poder e energia com a qual Elias se levantou para trazer de volta a geração perversa de seu próprio tempo para o Deus dos pais. Um não exclui mas ao contrário, inclui o outro. Quanto maior a apostasia, maior deve ser o poder para o deter, de forma a resgatar aqueles que sofrem ao serem resgatados, antes do julgamento explodir sobre aqueles que estão endurecidos8.

Assim faz parte da linguagem profética, usar o nome de um representante ao invés do nome real da pessoa. Desta forma, Gabriel faz uma interpretação válida da profecia sobre Elias, e Jesus ao se referir a João Batista como Elias, está simplesmente usando o mesmo palavreado usado por Malaquias.

Não é necessário portanto entender a profecia de Malaquias ou as palavras de Cristo de forma tão literal quanto os espíritas pedem. Mas esta exigência que eles propõe não elimina a possibilidade do traslado, já que a vinda de Elias em carne e corpo seria uma vinda muito mais literal do que a reencarnação proposta por eles. No entanto, a credibilidade de Jesus está novamente ameaçada com esta exigência, e novamente de forma desnecessária.

Conclusão

João Batista é a reencarnação de Elias? Segundo as próprias Escrituras, Elias não chegou a morrer e isto mina completamente a tentativa de se usar a relação de Elias e João Batista como uma prova bíblica da reencarnação.

Vimos durante toda a análise, várias tentativas de se salvar este argumento. Muitos espíritas consideram ele como uma grande prova bíblica a favor da reencarnação. No entanto, podemos observar aqui que estas tentativas na verdade não buscam retirar do texto bíblico sua mensagem. O que se tenta fazer é usar a Bíblia apenas como selo de veracidade.

No fim da história então, não está se buscando o ensino da Bíblia a este respeito. Neste caso, não dá para dizer que a reencarnação é bíblica.

Notas

1. Allan Kardec, A Gênese, capítulo 17, parágrafo 34.

2. Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo 4, parágrafo 11.

3. Allan Kardec, O livro dos espíritos, capítulo 3.

4. Flávio Josefo, Historia dos Hebreus, Livro 9, capítulo 1.

5. Traduzido de http://www.sacred-texts.com/jud/t05/ere11.htm.

6. Comentário de Keil & Delitzsch sobre 2 Crônicas 21:12-17.

7. Comentário de João Calvino sobre João 3:5

8. Comentário de Keil & Delitzsch sobre Malaquias 4:4-6.

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Comentários   

0 #5 Gustavo 09-10-2015 18:56
Olá, Jairo.

Antes de falar sobre o texto que você citou, vamos entender um pouco do contexto. Ali, o que dá início à parábola em questão é a discussão sobre o dinheiro e como os fariseus reagiram contra isto:

Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.
E os fariseus, que eram avarentos, ouviam todas estas coisas, e zombavam dele.
Lucas 16:13,14

Certamente zombavam porque era comum a ideia de que a riqueza era algum tipo de indício de favor divino. E é por isto que Jesus nos conta a história deste rico e de Lázaro, apresentando uma perspectiva completamente diferente do que qualquer um esperava: o rico indo para o inferno e Lázaro sendo levado para o seio de Abraão.
Qual é o motivo de tudo isto? Jesus quer mostrar que é a observância aos mandamentos de Deus que O agrada. Um rico que não ouve a Palavra de Deus não o agrada, e sua riqueza não pode ser usada como indício de favor divino.
Dito isto, vamos para nosso texto. Ele nos diz que,

E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai,
Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.
Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos.
E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam.
Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite.
Lucas 16:27-31

O que Abraão nos diz aqui é que, se tais pessoas não ouvem nem a Palavra de Deus e a cumprem, como é que eles poderiam acreditar na palavra de alguém que volte dos mortos? Revendo este texto aqui, podemos fazer uma pequena reflexão: se existe comunicação entre vivos e mortos, por que este rico não entra em contato direto com seus familiares? Por que ele tem que pedir para Lázaro ir até sua família? E por que Abraão entende que um morto deveria ressuscitar para poder se comunicar com estes familiares?
A inutilidade desta comunicação se dá por que não há nada que um morto possa dizer, que complemente o que já está escrito nas Escrituras. Este é o argumento de Abraão aqui: tudo que os homens precisam para se arrepender está escrito.
O texto de Saul e da pitonisa é um texto mais complicado. É complicado, por que há vários pontos que favorecem uma real comunicação entre Saul e Samuel, e há outros que favorecem uma comunicação com algo que se parecia com Samuel. Independente de quem foi contactado nesta história, o que penso é que o Velho Testamento geralmente condena até a tentativa de se comunicar com espíritos. Por que a lógica veterotestamentária é esta: se já temos Deus para consultar, por que deveríamos recorrer a espíritos?

Quando, pois, vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram: Porventura não consultará o povo a seu Deus? A favor dos vivos consultar-se-á aos mortos?
À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles.
Isaías 8:19,20

Deus é muito maior e possui muito mais conhecimento do que qualquer espírito. Por que então a pessoa deixaria de seguir Suas orientações para ouvir um espírito?

Abraços
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0 #4 Luiz 07-10-2015 15:40
Olá Jairo

Boa tarde

A passagem de Lucas 16:31 não fala nada de comunicação entre espíritos com os homens aqui na Terra, mas fala de um diálogo, permitido por Deus diga-se de passagem , entre a alma do rico e a alma de Abrãao ambos na esfera espiritual. Como o corpo do rico e de Abrãao estavam enterrados logo tal situação é mais uma prova da santa doutrina da imortalidade da alma pois conforme Lucas 16:22 o corpo do rico foi sepultado. Não foi uma comunicação por intermédio de um médium antes foi com a permissão de Deus e veja que o próprio Jesus contou isso.

Um abraço

Luiz
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0 #3 Jairo Lima 06-10-2015 23:52
Olá, Gustavo...

Sim, me referi ao comentário citado acima, no segundo parágrafo do texto do comentarista supracitado.

Pelo que pude entender, você concorda que Lucas 16.31 não pode ser usado para afirmar a impossibilidade da comunicação entre vivos e mortos. Você entende como indicando uma comunicação inútil. Aí eu pergunto: seria inútil naquela ocasião específica ou estava se estabelecendo uma condição permanente entre homens encarnados e espíritos? Aproveito e pergunto: como você entende o episódio entre Saul, pitonisa de En-Dor e Samuel?

Grato por sua prontidão em ajudar e, desde já, deixo claro que não tenho pressa nas repostas. Fique tranquilo...

Abraço.
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0 #2 Gustavo 06-10-2015 21:55
Olá, Jairo.

Para lhe dar uma resposta melhor, eu precisaria saber em qual comentário de Keil & Delitzsch você obteve este texto. Seria de algum versículo que foi usado acima?
Ao meu ver, Lucas 16:31 não fala da impossibilidade de comunicação entre vivos e mortos, mas de sua inutilidade. Tudo que precisamos saber, já se encontra escrito nas Escrituras.

Abraços.
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0 #1 Jairo Lima 06-10-2015 21:23
Graça e Paz!

Tenho uma pergunta sobre o seguinte trecho do comentário bíblico de Keil & Delitzsch. Ficarei grato se alguém puder me ajudar:

"Mas as Escrituras do Velho e Novo Testamento não conhecem nada sobre qualquer comunicação por escrito entre os aperfeiçoados santos no céu e homens; de fato, elas ensinam o contrário na parábola do homem rico (Lc 16:31)."

Onde Lucas 16.31 “ensina o contrário” de que “qualquer comunicação por escrito entre os aperfeiçoados santos no céu e homens” seja possível? (Perdoem se entendi errado a afirmação).

Adianto-lhes que não penso (entenda como “não sei”) que essa comunicação seja de fato possível; apenas não percebi como Lucas 16.31 possa ser interpretado dessa maneira.

Em Cristo,

Jairo Lima
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