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Maria, "cheia de graça"?

Escrito por  Gustavo

A anunciaçãoHá algum tempo, quando participava de uma lista de discussões, um participante católico me confrontou com uma suposta alteração feita por protestantes no versículo de Lucas 1:28, onde o anjo chama Maria de "agraciada", ao invés de "cheia de graça", como está nas Bíblias católicas. Esta foi a primeira vez que me deparei com esta acusação por parte dos católicos.

Desde então, vejo o argumento sendo defendido por vários católicos. Vejo muitos sites protestantes também lidando com este argumento, o que mostra que a acusação tem ganhado cada dia mais força em meios católicos. Em seu favor, os católicos listam o próprio Jerônimo, tradutor da Vulgata latina, como base para a tradução "cheia de graça".

Tal é o caso do apologista católico Paulo Leitão, que em seu programa "Em defesa da fé", discutindo sobre as "adulterações protestantes", cita a mesma passagem como uma "adulteração clássica":


Uma das mais clássicas adulterações da Bíblias protestantes é em Lucas 1:28, onde o anjo diz "Ave Maria, cheia, de graça. Vamos ver as adulterações desta passagem... A mais convencional, que está na Bíblia NIV, a Nova Versão Internacional, né, a adulteração mais clássica, que também está em uma das Bíblias Almeida, é o termo "agraciada". Em vez de "cheia de graça", colocou "agraciada". Vamos lá, ó: "O anjo aproximando-se dela, disse: alegra-se, agraciada", né? A palavra "agraciada" não remete de forma nenhuma à plenitude da graça, que o anjo saudou Maria, né? Que está na saudação do anjo, né? O termo κεχαριτωμενη, que é um termo particípio passivo perfeito, que mostra que ela foi santa e será durante todo o sempre, toda pura, toda imaculada. Então, uma das táticas foi tirar esta revelação, né? E o maior expert em idiomas bíblicos, que foi são Jerônimo, quando escreveu, compilou a Vulgata em latim, ele traduziu perfeitamente para "gratia plena": cheia de graça1.

Vemos que o argumento envolve tanto a correta tradução do termo grego κεχαριτωμενη, como também a própria tradução de Jerônimo para o latim. Afinal de contas, qual é a correta tradução para este termo?

A tradução correta do versículo

A primeira dúvida que temos é sobre a tradução correta do termo grego κεχαριτωμενη. Qual é a melhor tradução? Seria “agraciada” ou “cheia de graça”?

Como corretamente observou o católico Paulo Leitão, o termo está no particípio passivo perfeito. O verbo em questão é χαριτόω, que segundo a BDAG2 (dicionário padrão do grego koiné), significa causar ser recipiente de um benefício, favorecer, favorecer imensamente, abençoar. O termo está relacionado com χάρις, comumente traduzida para graça, e por isto uma outra tradução possível para χαριτόω seria agraciar. E como temos um particípio passivo (como Paulo Leitão mesmo nos informa), o termo agraciada é uma tradução perfeitamente possível.

A questão, no entanto, não é tão simples, pois o original traz este mesmo particípio no perfeito. E é provavelmente a adequada tradução deste tempo grego que está por trás da disputa neste versículo.

Quando fui confrontado a primeira vez com esta acusação de adulteração protestante, o católico havia dito que é o κε de κεχαριτωμενη que deveria ser traduzido pelo “cheia” que encontramos no texto católico.

A verdade é que este κε é apenas o prefixo do perfeito. Imagine a conjugação de verbos no próprio português: como é que alguém sabe qual é o tempo de um verbo? Em português normalmente se verifica o sufixo do verbo. É por isto que sabemos que escrevo está no presente e escreverei está no futuro. No caso do grego, temos indicações do tempo tanto no sufixo quanto no prefixo. O sinal do perfeito é a chamada reduplicação: a primeira consoante é repetida no começo e ligada à raiz do verbo através do ε. Nos verbos que se iniciam com χ, a consoante é trocada por κ, e daí temos o κε, de κεχαριτωμενη.

O perfeito é um tipo de tempo passado. Mas é bom entender que um verbo, dependendo do contexto e de seu emprego, pode assumir nuances que nem sempre são expressas pela forma temporal do verbo (chamada de aspecto). Por exemplo, quando digo “Eu vou estudar grego”, o verbo aqui é empregado no presente, embora a frase esteja falando de um evento futuro. O emprego de costumar em “costumo ler livros”, por outro lado, indica que a ação da frase é uma ação repetitiva. O nome dado a esta combinação de aspecto verbal, contexto e palavras com determinados significados (aspecto lexical) é chamado tecnicamente de Aktionsart. Por isto mencionei há pouco que o perfeito geralmente tem seu foco no resultado. Isto vai depender muito de como ele é empregado. A boa notícia é que os tempos verbais possuem uma gama limitada e conhecida de Aktionsart.

Mas por que mencionar toda esta história de Aktionsart e aspecto aqui? É por que a questão da correta tradução do termo κεχαριτωμενη envolve a correta identificação do Aktionsart deste particípio. Paulo Leitão, por exemplo, mencionou que o termo indica que Maria "foi santa e será durante todo o sempre, toda pura, toda imaculada". O pressuposto dele, portanto, é que este perfeito estaria sendo usado como uma ação atemporal.

Ações atemporais são chamadas tecnicamente de gnômicas, e o perfeito pode ser empregado como perfeito gnômico, como nos informa Daniel B. Wallace em sua gramática:

Com força gnômica, o tempo perfeito fala de uma ocorrência genérica ou proverbial. A força do aspecto do perfeito fica normalmente intacta, mas agora com valor distributivo, ou seja, algo é pressentido em muitas ocasiões ou por muitos indivíduos. Exemplos desta categoria são raros3.

Os exemplos desta categoria nos mostram como entender o perfeito gnômico:

(Rm 7:2) Porque a mulher casada está ligada pela lei a seu marido enquanto ele viver; mas, se ele morrer, ela está livre da lei do marido.

Paulo não queria dizer com isto que a mulher casada esteve, está e estará ligada ao marido por todo o sempre. Ele está dando um exemplo genérico: é algo que sempre acontece, não uma verdade universal, como "Deus ama". Provavelmente se Lucas tivesse usado o presente gnômico, teríamos o sentido que os católicos desejam, já que o presente gnômico é contínuo, enquanto que o perfeito gnômico é distributivo.

O perfeito pode indicar, no entanto, outro sentido:

O perfeito pode ser usado para enfatizar os resultados ou o estado presente produzidos por uma ação passada. O presente no português é, muitas vezes, a melhor tradução para tal perfeito. Esse é um uso comum do perfeito4.

Temos ainda:

O perfeito é aqui usado para enfatizar a ação completa de uma ação passada ou o processo a partir do qual um estado presente emerge. Em português, normalmente, traduz-se pelo pretérito perfeito composto. Esse uso é comum5.

Assim, ou o anjo estaria enfatizando o estado atual de Maria (de ser agraciada), ou estaria enfatizando o fim de uma ação (de receber graça). Pelo contexto, é mais natural concluir que o anjo estava falando do estado atual de Maria.

O texto, portanto, não poderia nos dizer que Maria "foi santa e será durante todo o sempre, toda pura, toda imaculada". Mesmo por que o anjo não a chama de "cheia de santidade". Mas se é assim, por que Jerônimo traduz este termo por "gratia plena"?

A tradução latina de Lucas 1:28

Na Vulgata, o texto em questão nos diz:

(Lc 1:28) et ingressus angelus ad eam dixit have gratia plena Dominus tecum benedicta tu in mulieribus

O debate promovido por esta tradução é que a palavra “plena” não existe no original grego, tendo apenas o termo κεχαριτωμενη que analisamos acima. Neste caso, por que Jerônimo introduziu este termo?

Não é a primeira vez que Jerônimo é questionado sobre suas traduções. Sua controvérsia com Rufino se deu exatamente pela questão de como uma tradução deve ser feita. Em uma carta a Pammachius, escrita em 395, ele lida com a acusação de distorcer uma carta de Epifânio a João de Jerusalém em uma tradução para o latim. É nesta carta que podemos aprender mais sobre o método de tradução empregado por Jerônimo:

Horácio também, um escritor acurado e erudito, em sua Arte da Poesia, dá a mesma orientação ao tradutor habilidoso:

E não te preocupes com pensamentos, demasiadamente ansiosos, de traduzir palavra por palavra.

Terêncio traduziu Menandro, Plauto e Cecílio os antigos poetas cômicos. Eles se prenderam a palavras? Não pensaram primeiro, em suas versões, em preservar a beleza e o charme de seus originais? O que homens como vocês chamam fidelidade na transcrição, os letrados chamam de pequena pestilência6.

Em suas traduções, geralmente Jerônimo traduzia priorizando o sentido do texto original, não a relação palavra-palavra. Ele enumera apenas uma exceção a isto:

Pois eu mesmo não só admito mas livremente proclamo que ao traduzir do grego (exceto no caso das Sagradas Escrituras onde até mesmo a ordem das palavras é um mistério) eu traduzo sentido por sentido, não palavra por palavra7.

A metodologia de tradução de Jerônimo, portanto, é o de traduzir sentido por sentido. A tradução das Escrituras ele menciona como exceção a esta regra, por causa “da ordem das palavras ser um mistério”. Quais seriam as implicações práticas disto? Significa que Jerônimo, ao traduzir as Escrituras, faz palavra por palavra, enquanto que no resto de suas traduções ele faz sentido por sentido?

Diante de sua tradução de Lucas 1:28, é provável que haja uma mistura dos dois: Jerônimo traduziria as Escrituras o máximo possível priorizando a ordem e as palavras, mas quando vê que isto é insuficiente para transmitir o sentido original, ele procede com a tradução do sentido. Mas por que Jerônimo sentiu a necessidade de adicionar “plena” em sua tradução? É aqui que voltamos novamente à discussão do tempo perfeito em grego e de seu Aktionsart.

Provavelmente Jerônimo entendeu que o tempo perfeito no grego, naquele versículo, estaria enfatizando o fim de uma ação (e não o estado atual de Maria, como observamos acima), que é a de receber graça. E assim, para indicar em sua tradução que a graça teria sido concedida por completo para Maria, ele adicionou a palavra “plena” em sua tradução, traduzindo o sentido da fala do anjo, ao invés de se ater à tradução palavra por palavra.

O católico poderia agora argumentar: “Mas isto é apenas uma suposição, não há nada que demonstre que Jerônimo tinha esta intenção ao traduzir o versículo”. Devemos agradecer a outro doutor da Igreja Católica, Tomás de Aquino, por nos dar uma pequena ajuda neste caso. Ao fazer sua compilação de comentários patrísticos aos Evangelhos, a Catena Aurea, ele nos deixou registrado a interpretação do versículo pelo próprio Jerônimo:

E é bem dito, Cheia de graça, pois para outros, a graça vem em parte; para Maria de uma vez só a plenitude da graça completamente se infundiu. Ela é verdadeiramente cheia de graça através de quem a abundante chuva do Espírito Santo foi aspergida sobre toda criatura. Mas Aquele que enviou o anjo à Virgem já estava com a Virgem. O Senhor precedeu Seu mensageiro, pois Aquele que habita em todos os lugares não podia ser confinado por um lugar. Daí segue-se, o Senhor está contigo8.

O texto latino diz:

Hieronymus. Et bene gratia plena: quia ceteris per partes praestatur; mariae vero simul se totam infudit gratiae plenitudo. Vere gratia plena, per quam largo spiritus sancti imbre superfusa est omnis creatura. Iam autem erat cum virgine qui ad virginem mittebat Angelum, et praecessit nuntium suum dominus, nec teneri potuit locis qui omnibus habetur in locis: unde sequitur dominus tecum9.

Infelizmente Tomás de Aquino não nos deixou uma referência de qual obra de Jerônimo ele retirou estas palavras. Assim não podemos investigar o contexto de suas declarações10. Mas se estas são realmente palavras de Jerônimo, temos aqui uma prova de que ele via o perfeito como uma ênfase na conclusão da ação verbal. E para deixar isto claro em sua tradução, ele adicionou a palavra plena.

Antes de concluirmos esta parte, precisamos mencionar aqui a curiosa declaração de Jerônimo que através de Maria “a abundante chuva do Espírito Santo foi aspergida sobre toda criatura”. Certamente o católico identificará aqui um pouco de sua Mariologia e acredito que não há disputa sobre o fato de Jerônimo expor opiniões sobre Maria muito próximas do que é ensinado hoje no Catolicismo Romano. Ele mesmo escreveu um tratado para defender a virgindade perpétua. No entanto, é sempre bom ter cautela a respeito de textos sem seu devido contexto. Afinal de contas, o que Jerônimo estaria dizendo ali? Que através de Maria a graça divina é distribuída a toda criatura (de forma mais direta), ou que o fato dela aceitar sua missão, de carregar Cristo em seu ventre e criá-lo é que possibilitou a distribuição desta graça?

Conclusão

Vimos aqui que “agraciada” não apenas é uma tradução válida, mas é a melhor tradução. Quando o católico cita Jerônimo em sua defesa, ele desconhece que Jerônimo não fazia traduções literais, completando suas traduções com as palavras necessárias para dar o sentido do texto original. Portanto, “cheia” é uma palavra que não consta no original e foi adicionada por Jerônimo.

No mesmo vídeo que Paulo Leitão fala deste texto, ele acusa Lutero de adicionar a palavra allein em Romanos 3:28. Ora, Lutero fez isto pelos mesmos motivos que Jerônimo adicionou plena em Lucas 1:28. Não deveria Paulo Leitão acusar Jerônimo de adulterador da mesma forma, ao invés de tratá-lo como o “maior expert em idiomas bíblicos”?

Esperamos ter esclarecido este tema, tentando simplificar ao máximo todos os conceitos e termos técnicos utilizados para um entendimento correto do texto.

Notas

1. O vídeo pode ser visto aqui:

2. BDAG, pág. 1081.

3. WALLACE, Daniel B., Gramática Grega, uma sintaxe exegética do Novo Testamento, pág. 580, editora EBR.

4. WALLACE, Daniel B., Gramática Grega, uma sintaxe exegética do Novo Testamento, pág. 574, editora EBR.

5. WALLACE, Daniel B., Gramática Grega, uma sintaxe exegética do Novo Testamento, pág. 577, editora EBR.

6. Carta 57 de Jerônimo, para Pammachius sobre a melhor forma de tradução, disponível online em http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf206.v.LVII.html.

7. Ibid.

8. A Catena Aurea pode ser lida online. O trecho em questão está disponível em http://www.catecheticsonline.com/CatenaAurea-Luke1.php.

9. Tomás de Aquino, Catena Aurea, Caput 1, lectio 9. O texto pode ser obtido no site Documenta Catholica Omnia, em http://www.documentacatholicaomnia.eu/20_50_1225-1274-_Thomas_Aquinas,_Sanctus.html

10. Não fui capaz de localizar esta citação nos escritos de Jerônimo da Patrologia Latina.

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