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Roger Olson condena Zuínglio ao inferno

Escrito por  Gustavo
Estátua de Zuínglio

Autor de um bem escrito livro sobre história da Igreja, Roger Olson tem escrito várias críticas a personagens históricos da igreja, destacando vários de seus “erros”. Especial atenção recebem os personagens históricos ligados a grupos historicamente contrários ao Arminianismo, corrente de pensamento que ele atualmente defende e advoga. Ele já criticava João Calvino1, mas em uma resenha preliminar do livro Defending Constantine: The Twilight of an Empire and the Dawn of Christianity de Peter Leithart, ele não se contentou em criticar apenas Constantino, mas também resolveu direcionar suas críticas a um personagem bastante improvável: Ulrico Zuínglio.

Em sua resenha, ele diz:


Isto toca em um assunto que eu já levantei anteriormente. Até onde nós devemos deixar figuras históricas saírem do lamaçal só porque o contexto cultural e os tempos onde viveram – especialmente quando eles clamavam ser cristãos e tinham suas Bíblias e as liam? Deveríamos perdoar Zuínglio por fazer o conselho da cidade de Zurique torturar Hubmaier? Por todos os relatos Zuínglio ficou na câmara de tortura e exigiu que Hubmaier, que veio a Zurique por convite de Zuínglio para um debate assumindo proteção, desistisse de seus pontos de vista anabatistas. E, é claro, Zuínglio deu amplo suporte ao afogamento de de homens e mulheres anabatistas. Deveríamos dizer “Bem, aqueles eram tempos difíceis”? Eu não acho. Ou Zuínglio está no inferno ou ele teve que passar por um processo no estilo purgatório antes de entrar no céu. Se você não acredita em nada como o purgatório (mesmo na versão altamente protestante de C. S. Lewis), eu não vejo como você poderia evitar colocar Zuínglio no inferno2.

Obviamente, não cabe a nós colocarmos Zuínglio ou qualquer outra pessoa onde quer que seja, seja no céu, seja na terra. Isto cabe apenas a Deus, nosso único Juiz. Olson que clama ser cristão, tem a Bíblia e a lê, deveria saber disto (o que indica que se livrar dos contextos culturais não é mesmo uma tarefa fácil).

Mas há um problema ainda maior nesta declaração, principalmente por Olson ser autor de livros sobre história eclesiástica: a má representação da vida de Zuínglio. Quem nos dá o verdadeiro relato sobre Zuínglio e como ele lidou com Hübmaier é Oswald Myconius (1488-1552), seguidor de Zuínglio que registrou estes relatos em seu livro Vida de Zuínglio:

Enquanto isto, bom Deus, que pestilência tem se infiltrado! A heresia dos Catabatistas, proibindo o batismo de crianças e se rebatizando, depois correndo com espírito selvagem para todas as heresias que já existiram. Primeiro quando ele [Zuínglio] tomou conhecimento da coisa, porque os líderes eram tanto amigos quanto eruditos, tanto cidadãos quanto paroquianos, ele tentou de uma forma familiar dissuadi-los, mas quando, prometendo em sua presença, eles começaram a deixá-lo para negar, mentir, reunir discípulos, dividir a Igreja, estabelecer uma nova, ele foi forçado a ir contra Satanás com toda sua força e fazer guerra aberta contra ele.

Acredite em mim, Agathius, eu estava presente em nove conferências amigáveis e sérias disputas. Se fosse minha tarefa tratar da questão com considerável tempo eu certamente teria algo a dizer. Suas bocas espumavam com palpáveis blasfêmias e abusos, e em uma palavra qualquer revelação de males que João faz eles acumulam sobre Zuínglio. Esta praga, quanto maior o esforço para reprimi-la, mais ardente ela se torna.

Então o Senado estava largamente compelido a atacá-la com prisões, exílio e morte, não como catabatistas mas como pessoas perjuradoras, desobedientes e sedutoras, a menos que eles (o Senado) quisessem dar a impressão de advogar o falso ao invés do verdadeiro, sedição ao invés da paz, o mal ao invés do bem. Ainda não era possível desta forma evitar a necessidade de avisar previamente os bons por publicar livros para que eles não sejam levados por engôdos.

Doutor Balthasar Hübmaier era o cabeça dos catabatistas, não muito antes um amigo e companheiro no evangelho, mas um pouco depois um inimigo muito violento. Ele primeiro se manifestou por escritos e então, depois que ele escapou de Waldshut, uma cidade no Reno, secretamente entrou em Zurique, sendo apreendido, resistiu verbalmente no tribunal na presença somente dos deputados. Então ele pediu ao Senado que o permitissem conferir com Leo Jud, Sebastian Hofmeister e eu. Seus desejos foram cumpridos pela segunda vez. Nós trabalhamos com este homem de forma que ele prometeu renunciar no dia seguinte.

Então, neste espírito, vindo no dia seguinte do tribunal à igreja, ele subiu ao púlpito depois que Zuínglio desceu e confirmou tudo que ele ensinara antes, fingindo ter sido movido a isto porque ele (Zuínglio) colocou muita ênfase sobre a constância, o miserável homem julgando que sua pertinácia fosse constância! Retornando à prisão ele foi completamente escondido pela bondade de Zuínglio até ele ser secretamente mandado embora, não sem guia e dinheiro para a viagem, e chegou a Constança, de onde ele acusou o homem [Zuínglio] de abuso para forçá-lo a se desculpar aos irmãos. Mas basta dos catabatistas3.

Assim, o que na verdade aconteceu é que Zuínglio ajudou Hübmaier a fugir. É lamentável, portanto, ver alguém que deveria ensinar história deixar se levar pelos próprios preconceitos e fazer injustiça à esta história.

Notas

1. Uma crítica de Roger Olson a Calvino, embora mais voltada à sua teologia, foi traduzida para o português e disponibilizada em http://www.arminianismo.com/index.php/categorias/diversos/artigos/44-roger-e-olson/1057-roger-e-olson-meu-maior-problema-com-calvinocalvinismo

2. Texto publicado em http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2012/07/preliminary-review-of-defending-constantine/

3. Trecho do livro foi disponibilizado por Jim West em seu blog, no link http://zwingliusredivivus.wordpress.com/2012/07/23/oswald-myconius-on-the-anabaptists-and-the-misrepresentation-of-zwingli-by-one-mr-olson/

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