• Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.

    Mateus 5:44,45

  • Disse-lhes ele: Por causa da vossa pouca fé; pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível

    .

    Mateus 17:20

  • Qual de vós é o homem que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, e não vai após a perdida até que a encontre?

    Lucas 15:4

  • Então ele te dará chuva para a tua semente, com que semeares a terra, e trigo como produto da terra, o qual será pingue e abundante. Naquele dia o teu gado pastará em largos pastos.

    Isaías 30:23

  • As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem;

    João 10:27

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Verso do dia

Lutero - Sermão sobre a Eucaristia - 1519

Escrito por  Martinho Lutero

Um Sermão sobre o Venerabilíssimo Sacramento do Santo e Verdadeiro Corpo de Cristo e sobre as Irmandades,

do Doutor Martinho Lutero, Agostiniano
1519

Eucaristia

1. O santo Sacramento do Altar e do santo e verdadeiro Corpo de Cristo também1 contém três coisas que é preciso saber: a primeira é o sacramento ou sinal; a segunda, o significado desse sacramento; a terceira, a fé nessas duas coisas; pois em todo sacramento deve haver essas três coisas. O sacramento deve ser exterior e visível, em uma forma ou espécie corporal. O significado deve ser interior e espiritual, no espírito da pessoa. A fé precisa juntar esses dois, de modo que tragam proveito e sejam praticados.

2. O sacramento ou sinal exterior está na forma e espécie do pão e do vinho, assim como o Batismo na água, porém de maneira tal que se usem o pão e o vinho comendo e bebendo, assim como se usa a água para imersão ou aspersão. Pois o sacramento ou sinal precisa ser recebido ou pelo menos desejado para que possa trazer proveito. Muito embora atualmente não sejam dadas ambas as espécies ao povo todos os dias, como acontecia antigamente – o que também não é necessário -, os sacerdotes as desfrutam diariamente diante do povo; basta que o povo deseje o sacramento todo dia e, atualmente, o receba sob uma única espécie, assim como a Igreja cristã o determina e dá.

3. Tenho para mim, entretanto, que seria bom que a Igreja, num concílio geral, tornasse a determinar que ambas as espécies fossem dadas a todas as pessoas, assim como aos sacerdotes. Não porque uma única espécie não seja suficiente, pois o desejo da fé certamente já basta. Assim diz Santo Agostinho2: "Para que ficas preparando a barriga e os dentes? Crê somente, e já desfrutaste o sacramento"3. Acontece que seria conveniente e bonito se a espécie e forma ou sinal do sacramento fossem oferecidos não parcialmente, em uma parte apenas, mas integralmente. Da mesma forma, afirmei a respeito do Batismo4 que, por causa da integridade e perfeição do sinal, seria mais condizente imergir na água do que aspergi-la. Ocorre que esse sacramento significa uma união completa e uma comunhão indivisa dos santos (como haveremos de ouvir), que é indicada de maneira deficiente e inadequada com uma única parte ou porção do sacramento. Ademais, o perigo como cálice5 não é tão grande como se acha, uma vez que o povo raramente vai a este sacramento, e principalmente porque Cristo, que sem dúvida sabia de todo perigo futuro, quis, mesmo assim, instituir ambas as espécies para que todos os seus cristãos delas fizessem uso.

4. O que este sacramento significa ou opera é comunhão de todos os santos. É por esta razão que se costuma chamá-lo, na linguagem comum, de synaxis ou communio, isto é, comunhão; e communicare, em latim, significa receber essa comunhão, o que, no vernáculo, chamamos de ir ao sacramento6. A razão disso é que Cristo forma um corpo espiritual com todos os santos, assim como o povo de uma cidade constitui uma comunidade e um corpo, sendo cada cidadão membro do outro e da cidade inteira. Da mesma maneira, todos os santos são membros de Cristo e da Igreja, que é uma cidade espiritual e eterna de Deus. Ser aceito nessa cidade significa ser recebido na comunhão dos santos, ser incorporado ao corpo espiritual de Cristo, ser feito membro seu. Em contrapartida, excommunicare significa tirar da comunhão, separar um membro desse corpo, o que, no vernáculo, significa excomungar7, porém com distinções, conforme exporei no sermão seguinte sobre a excomunhão8.

Portanto, receber este sacramento em pão e vinho não é outra coisa senão receber um sinal certo dessa comunhão e incorporação em Cristo e todos os santos; é como dar a um cidadão um sinal, um documento ou alguma outra insígnia, para que ele tenha certeza de que será cidadão da cidade, membro dessa comunidade. Assim diz São Paulo em 1 Co 10.17: "Nós, que participamos de um único pão e de um único cálice, somos todos um só pão e um só corpo".

5. Essa comunhão consiste em que todos os bens espirituais de Cristo e de seus santos9 são compartilhados e comunicados a quem recebe esse sacramento; por outro lado, todos os sofrimentos e pecados também passam a ser comuns, de modo que amor é aceso por amor, levando à união. E para ficar na tosca comparação sensitiva: é assim como, numa cidade, cada cidadão passa a participar do nome, da honra, da liberdade, dos negócios, costumes, tradições, do auxílio, assistência, proteção, etc. dessa cidade; em contrapartida, ele participa de todos os perigos, incêndios, inundações, inimigos, da mortandade, dos prejuízos, taxas e impostos, e coisas semelhantes. Pois quem quer desfrutar também precisa contribuir e pagar amor com amor. Aqui se vê que quem causa algum mal a um cidadão, causa mal à cidade e a todos os cidadãos; quem faz bem a um cidadão, merece o favor e a gratidão de todos os outros. O mesmo vale para o corpo físico, conforme diz São Paulo em 1 Co 12.25s, ao explicar este sacramento em sentido espiritual: "Cuidem os membros uns dos outros. Se um membro sofre, todos sofrem com ele; se um deles passa bem, os outros se regozijam com ele". Vemos, portanto: se dói o pé de alguém, mesmo que seja só o dedinho, o olho se volta para ele, os dedos o tocam, o rosto se franze e todo o corpo se inclina em sua direção; todos se ocupam com o minúsculo membro. Em contrapartida, cuidar bem dele faz bem a todos os membros. Para entender este sacramento, é preciso guardar bem essa comparação, pois a Escritura a utiliza por causa das pessoas simples.

6. Neste sacramento, portanto, a pessoa recebe, através do sacerdote, um sinal certo da parte do próprio Deus de que, dessa forma, ela é unida a Cristo e a seus santos, participando de todas as coisas, de modo que o sofrimento e a vida de Cristo, bem como os de todos os santos, passam a ser dela própria. Assim sendo, quem lhe faz mal, fá-lo a Cristo e a todos os santos, conforme ele diz através do profeta: "Quem tocar em vocês toca na menina do meu olho" [Zc 2:8]; em contrapartida, quem lhe faz bem, fá-lo a Cristo e a todos os seus santos, conforme ele diz em Mt 25.40: "O que vocês fizeram a um de meus pequeninos, a mim o fizeram". Por outro lado, a pessoa também deve compartilhar de todos os fardos e adversidades de Cristo e de seus santos, contribuindo e desfrutando da mesma forma que eles. Consideremos mais de perto esses dois [aspectos].

7. Não é um único adversário que nos causa mal. Há, em primeiro lugar, o resto de pecado remanescente na carne após o Batismo, a inclinação à ira, ao ódio, à soberba, à impudicícia, etc., que nos atribula enquanto vivemos. Aqui precisamos não só da ajuda da comunidade e de Cristo, no sentido de lutarem conosco contra isso; também é necessário que Cristo e seus santos intercedam por nós perante Deus, para que o pecado não nos seja imputado segundo o rigoroso juízo de Deus. É para nos fortalecer e nos animar contra esses pecados que Deus nos dá esse sacramento, como se estivesse dizendo; "Olha, muitos são os pecados que te atribulam; toma este sinal, com o qual te afianço que o pecado atribula não somente a ti, mas a meu filho Cristo e a todos os seus santos no céu e na terra. Por isso, não percas o ânimo e fica confiante; não estás lutando sozinho. Ao teu redor há muita ajuda e assistência".

A respeito desse pão diz o rei Davi: "O pão fortalece o coração do ser humano" [Sl 104.15]. E em outras passagens ainda a Escritura atribui a este sacramento10 a propriedade de fortalecer, como em At 9.19, referindo-se a São Paulo: "Ele foi batizado e recebeu o alimento, tendo sido fortalecido". Em segundo lugar, o espírito maligno nos assalta ininterruptamente com muitos pecados e adversidades. Em terceiro lugar, o mundo, que está cheio de maldade, provoca e persegue, e de forma alguma é bom. Por fim, nossa própria consciência suja nos atribula por causa de pecados cometidos; o mesmo ocorre com o medo da morte e dos tormentos do inferno. Tudo isso nos cansa e desanima, caso não buscarmos e encontrarmos força nessa comunhão.

8. Quem estiver sem alento, debilitado por sua consciência pecaminosa, assustado com a morte, ou de coração oprimido por alguma outra causa e quiser livrar-se, dirija-se alegremente ao Sacramento do Altar e deponha seu pesar na comunidade, busque ajuda junto a todo o corpo espiritual, assim como um cidadão, ao sofrer um prejuízo ou uma desgraça no campo causada por seus inimigos, queixa-se junto aos membros do conselho municipal e aos concidadãos e pede ajuda. Por isso nos são dadas neste sacramento a incomensurável graça e misericórdia de Deus, para que, ali, deponhamos toda a aflição, toda a tribulação, passando-as à comunidade e principalmente a Cristo, e para que a pessoa possa, com alegria, fortalecer-se, consolar-se e dizer a si mesma: "Se sou pecador, se caí, se me atinge este ou aquele infortúnio – pois bem, vou, por isso, ao sacramento e tomo de Deus um sinal de que a justiça de Cristo, sua vida e seu sofrimento estão em meu favor juntamente com todos os santos anjos, com as pessoas bem-aventuradas no céu e com todas as pessoas piedosas sobre a terra. Se tiver que morrer, não estarei sozinho na morte; se vier a sofrer, eles sofrem junto comigo. Todo o meu infortúnio se tornou comum a Cristo e aos santos, pois tenho um sinal certo de seu amor para comigo". Vê, este é o fruto e uso deste sacramento, em virtude do qual o coração deve ficar alegre e forte.

9. Por conseguinte, quando desfrutaste ou quiseres desfrutar este sacramento, precisas, em contrapartida, ajudar a carregar as adversidades da comunidade, conforme foi dito. Mas quais são elas? Cristo no céu bem como os anjos com os santos não sofrem adversidades, excerto quando a verdade e a palavra de Deus são prejudicadas. Como dissemos, eles são atingidos inclusive por todo sofrimento e amor de todos os santos sobre a terra. Teu coração deve, pois, entregar-se ao amor e aprender que este sacramento é um sacramento do amor e que, assim como tu recebes amor e assistência, deves, por tua vez, demonstrar amor e assistência a Cristo em sua santa palavra, toda miséria da cristandade, toda injustiça sofrida pelos inocentes; todas essas coisas existem em abundância em todas as partes do mundo. Em relação a elas, precisas opor resistência, agir, interceder e, quando não puderes fazer mais, deves ter compaixão sincera. Vê, é isto o que significa carregar, de tua parte, a desgraça e as adversidades de Cristo e de seus santos. Então se cumpre o dito de Paulo: "Levem as cartas uns dos outros, e assim cumprirão a lei de Cristo" [Gl 6.2]. Vê, assim tu carregas a todos, e assim todos, por sua vez, te carregam, e todas as coisas são em comum, tanto as boas quanto as más. Então todas as coisas ficam leves e o espírito maligno não consegue prevalecer contra a comunidade. Ao instituir o sacramento, Cristo disse: "isto é o meu corpo, oferecido por vocês; isto é o meu sangue, derramado por vocês; sempre que o fizerem, lembrem-se de mim" [Lc 22.19s.], como se estivesse dizendo: "Eu sou o cabeça, quero ser o primeiro que se dá por vocês, quero participar de seu sofrimento e sua desgraça e carregá-los para vocês, para que também vocês, por sua parte, procedam dessa maneira para comigo e uns para com os outros, permitindo que tudo seja comum em mim e comigo. Deixo-lhes este sacramento como um sinal certo de tudo isso, para que não me esqueçam, mas se exercitem diariamente nisso e se lembrem do que fiz e continuo fazendo em favor de vocês, para que possam fortalecer-se e também para que um carregue o outro dessa maneira".

10. Esta é também a primeira das razões por que este sacramento é usado muitas vezes, enquanto que o Batismo é usado uma única vez. Pois o Batismo é um início e uma entrada em uma nova vida, na qual nos sobrevêm muitíssimas adversidades, com pecados e sofrimentos, alheios e próprios. Temos aí o diabo, o mundo, a própria carne e consciência, como dissemos; eles não cessam de nos perseguir e acossar ininterruptamente. Por isso, precisamos de força, assistência e ajuda de Cristo e de seus santos, o que nos é prometido aqui como num sinal seguro, pelo qual somos a eles unidos e neles incorporados, sendo todo o nosso sofrimento deposto na comunidade.

É por esta razão que, para as pessoas que não sofrem desgraça, não experimentam medo ou não sentem seu infortúnio, este santo sacramento pouco o nenhum proveito traz; é que foi dado exclusivamente àqueles que necessitam de consolo e força, que têm um coração pusilânime, que estão com a consciência amedrontada, que padecem tentação de pecados ou já caíram nela. O que haveria ele de efetuar nos espíritos livres e seguros que não necessitam dele nem o desejam? Pois a mãe de Deus diz: "Ele enche de bens apenas os famintos e conforta os amedrontados" [Lc 1.53].

11. Por isso, para que os discípulos se tornassem dignos e aptos para este sacramento, ele os entristeceu primeiro, confrontando-os com sua despedida e morte, o que lhes causou dor e pesar. Além disso, assustou-os profundamente ao dizer que um dentre eles haveria de traí-lo. Quando ficaram cheios de tristeza e medo, aflitos com a dor e o pecado da traição, então estavam dignos, e ele lhes deu seu santo corpo e os fortaleceu novamente. Com isso, ele nos ensina que este sacramento é força e consolo para as pessoas entristecidas e amedrontadas pelo pecado e pelo mal. É o que também diz Santo Agostinho: "Este alimento procura somente uma alma faminta e de nada foge tanto quanto de uma alma saciada e repleta, que não precisa dele"11. Assim, os judeus tiveram que comer o cordeiro da Páscoa com ervas amargas, às pressas e de pé, o que também dá a entender que esse sacramento busca almas sequiosas, carentes e pesarosas. Agora, quem quer e deve compartilhar da desgraça de Cristo e de todos os cristãos, colaborar com a verdade, combater a injustiça, ajudar a carregar as necessidades dos inocentes e os sofrimentos de todos os cristãos, encontrará desgraça e adversidade suficiente, sem contar o que a natureza má, o mundo, o diabo e o pecado lhe impõem diariamente. Também é desígnio e vontade de Deus nos perseguir e acossar com tantos cães e nos preparar ervas amargas por toda parte, para que ansiemos por esse fortalecimento e nos alegremos com o santo sacramento, a fim de que estejamos dignos, isto é, desejosos dele.

12. Cristo quer que o sacramento seja muito usado também para que nos lembremos dele e, seguindo o seu exemplo, nos exercitemos em tal comunhão. Pois se não mais fôssemos confrontados com o exemplo, também a comunhão cedo acabaria esquecida. É o que, infelizmente, vemos agora: não obstante rezarem-se muitas missas, a comunhão cristã, que deveria ser pregada, exercitada e confrontada com o exemplo de Cristo, desaparece por completo, ao ponto de quase não mais sabermos para que serve esse sacramento e como se deve fazer uso dele; sim, infelizmente muitas vezes até destruímos a comunhão através das missas, pervertendo tudo. Isso é culpa dos pregadores que não pregam o Evangelho nem os sacramentos, mas suas invencionices humanas a respeito de toda espécie de obras e maneiras de viver corretamente. Outrora, porém, se praticava este sacramento tão corretamente e se ensinava o povo a entender essa comunhão tão bem, que chegavam a reunir também os alimentos e bens materiais na igreja para distribuí-los aos carentes, como escreve Paulo em 1 Co 11.21. É daí que permaneceu na missa o termo collecta, isto é, uma coleta comum, como quando se junta um fundo comum para dar aos pobres. Naquela época também tantos tornaram-se mártires e santos. Então havia menos missas, mas muita força ou fruto proveniente delas. Então um cristão se preocupava com o outro, um ajudava o outro, um tinha compaixão do outro, um carregava o fardo e a desgraça do outro. Agora isso se desvaneceu, restando apenas muitas missas e muito receber desse sacramento, sem que seu significado seja compreendido e praticado.

13. Não é difícil encontrar pessoas que gostam de desfrutar, mas não querem contribuir. Isto é: gostam de ouvir que neste sacramento lhes é prometido e dado auxílio, comunhão e assistência de todos os santos. Elas, entretanto, não querem retribuir a comunhão, não querem ajudar o pobre, tolerar os pecadores, cuidar dos miseráveis, solidarizar-se com os que sofrem, interceder pelos outros. Também não querem apoiar a verdade, buscar o melhoramento da Igreja e de todos os cristãos empenhando seu corpo, seus bens e sua honra. Elas não o fazem porque temem o mundo, porque não querem ter que sofrer desfavor, prejuízo, vergonha ou morte, embora Deus queira que, por causa da verdade e do próximo, elas sejam deste modo impelidas a desejar tão grande graça e força desse sacramento. Estas são pessoas que buscam seu próprio proveito, às quais este sacramento de nada serve, assim como é insuportável o cidadão que quisesse ser apoiado, protegido e favorecido pela comunidade, mas que, em contrapartida, não servisse à comunidade e nada fizesse por ela. Nós, pelo contrário, precisamos deixar claro que os males dos outros também sejam nossos, se queremos que Cristo e seus santos assumam os nossos males; assim a comunhão se torna plena e se faz justiça ao sacramento. Pois onde o amor não cresce diariamente e transforma a pessoa de tal forma que ela participe da existência de todos, aí o fruto e o significado desse sacramento estão ausentes.

14. Para denotar essa comunhão, Deus também instituiu sinais deste sacramento que em toda parte se prestam a esse fim e, com suas formas, nos estimulam e impelem para essa comunhão. Pois de muitos grãozinhos moídos juntos é feito o pão, e os corpos de muitos grãos se tornam o corpo de um só pão, no qual cada grãozinho perde seu corpo e sua forma, assumindo o corpo comum do pão; da mesma forma, também as uvas perdem a sua forma e se tornam o corpo de um vinho e bebida comum. É assim que devemos ser e é assim que também somos se usamos corretamente este sacramento: Cristo, juntamente com todos os santos, assume a nossa forma através do seu amor, luta ao nosso lado contra o pecado, a morte e todo mal. Em conseqüência, inflamados de amor, nós assumimos a sua forma, confiamos em sua justiça, vida e bem-aventurança. Assim, por intermédio da comunhão dos seus bens e do nosso infortúnio, somos um só bolo, um só pão, um só corpo, uma só bebida, e tudo é comum. Oh, este é um grande sacramento, diz S. Paulo12, que Cristo e a igreja sejam uma só carne e um só corpo. Por outro lado, devemos também transformar-nos através do mesmo amor, permitindo que sejam nossas as imperfeições de todos os outros cristãos, assumindo sua forma e necessidade e permitindo que seja deles tudo o que de bom estiver ao nosso alcance, para que possam desfrutar disto. É nisso que consistem a comunhão autêntica e o verdadeiro significado deste sacramento. Assim somos transformados um no outro e nos tornamos comuns uns aos outros através do amor, sem o qual não pode haver transformação.

15. Ele preferiu instituir essas duas espécies, a do pão e a do vinho, em lugar de outras, para indicar em outro sentido ainda a mesma unificação e comunhão contida neste sacramento, pois não existe unificação mais íntima, profunda e indivisível que a unificação do alimento com quem é alimentado. Isto porque o alimento entra e é transformado na natureza do alimentado e se torna um só ser com ele. Outras unificações, como por pregos, cola, amarras e similares, não fazem das coisas unificadas um ser indivisível. Assim também nós, no sacramento, somos unificados com Cristo e incorporados a todos os santos, de modo que ele cuida de nós e tudo faz por nós, como se ele fosse o que nós somos, como se aquilo que nos atinge atingisse também a ele, e atingisse a ele mais do que a nós; de modo que, em contrapartida, nós possamos acolhê-lo como se fôssemos aquilo que ele é; por fim também vai suceder que seremos conformados a ele, como diz S. João: "Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele" [1 Jo 3.2] – tão profunda e completa é a comunhão de Cristo e de todos os santos conosco. Portanto, os nossos pecados o atribulam; em contrapartida, a sua justiça nos ampara. Pois a unificação torna tudo comum, até que ele aniquile por completo o pecado em nós e nos torne semelhantes a si mesmo no último dia. Da mesma maneira, também nós devemos ser unificados com nossos próximos e eles conosco através do mesmo amor.

16. Além de tudo isso, ele não instituiu essas duas espécies sem mais nada, mas pôs no pão sua verdadeira carne natural e, no vinho, seu verdadeiro sangue natural, a fim de oferecer um sacramento ou sinal perfeito. Pois ao mesmo tempo em que o pão é transformado em seu verdadeiro corpo natural, e o vinho em seu verdadeiro sangue natural, tão verdadeiramente também nós somos incluídos e transformados no corpo espiritual, isto é, na comunhão de Cristo e de todos os santos. Através deste sacramento também somos integrados em todas as virtudes e graças de Cristo e de seus santos, assim como afirmamos acima a respeito de um cidadão que é transformado e integrado na proteção e na liberdade da cidade e de toda a comunidade. Por esta razão, Cristo também não instituiu uma única espécie, mas distintamente, sua carne sob o pão e seu sangue sob o vinho. Ele o fez para indicar que não só sua vida e suas boas obras – que ele indica por intermédio da carne e que realizou na carne -, mas também seu sofrimento e martírio – que indica por seu sangue e nos quais seu sangue foi derramado – são todos eles nossos e que nós, ali incluídos, podemos desfrutar e fazer uso disso.

17. Tudo isso deixa claro que este santo sacramento não é outra coisa senão um sinal divino no qual Cristo e todos os santos, com todas as suas obras, seus sofrimentos, méritos, graças e bens, são prometidos, dados e entregues como consolo e fortalecimento para todas as pessoas angustiadas e entristecidas, perseguidas pelo diabo, por pecados, pelo mundo, pela carne e por todo o mal; e receber o sacramento não é outra coisa senão desejar tudo isso e crer firmemente que assim sucederá.

Entra aqui a terceira parte deste sacramento: a FÉ, que é o que importa. Pois não basta saber o que é e o que significa este sacramento. Não basta saberes que se trata de uma comunhão e de uma misericordiosa permuta ou mistura do nosso pecado e sofrimento com a justiça de Cristo e de seus santos. Tu também precisas desejá-lo e crer firmemente que o recebeste. É neste ponto que o diabo e a natureza mais se esforçam, para fazer com que a fé de modo algum persista. Algumas pessoas exercitam sua habilidade e sutileza tentando descobrir onde fica o pão ao ser transformado na carne de Cristo e o vinho [ao ser transformado] em seu sangue, e como, sob tão pequena porção de pão e vinho, pode estar encerrado todo o Cristo, sua carne e seu sangue. Não importa que tu não te preocupes com essas questões. É suficiente que saibas que é um sinal divino, no qual a carne e o sangue de Cristo estão verdadeiramente contidos; deixa o "como" e o "onde" por conta dele mesmo.

18. Trata então de exercitar e fortalecer a fé, de modo que, quando estiveres entristecido ou quando teus pecados te oprimirem, vás ao sacramento ou ouças a missa, de modo que desejes de coração este sacramento e aquilo que ele representa, e não duvides que aquilo que o sacramento significa te sucederá. Isto é: deves ter certeza de que Cristo e todos os santos vêm ter contigo, com todas as suas virtudes, seus sofrimentos e graças, para contigo viver, fazer, deixar de fazer, sofrer e morre, e de que querem ser completamente teus, ter todas as coisas em comum contigo. Se bem exercitares e fortaleceres esta fé, sentirás quão alegre e opulento banquete de casamento e regalo teu Deus preparou para ti sobre o altar. Então entenderás o que significa a grande ceia do rei Assuero13; então verás o que são as bodas em que Deus abateu seus bois e cevados, conforme está no evangelho14; então teu coração ficará verdadeiramente livre e seguro, forte e corajoso contra todos os inimigos. Pois que pessoa haveria de temer qualquer adversidade, se tem certeza de que Cristo, juntamente com todos os santos, está com ela, compartilhando com ela todas as coisas, sejam boas ou más? Assim, lemos em Atos 2,46s que os discípulos de Cristo partiam e comiam este pão com grande alegria no coração. Uma vez que essa obra é tão imensa que a pequenez das nossas almas não poderia desejá-la, quanto mais esperar por ela ou contar com ela, é bom e necessário ir muitas vezes ao sacramento, ou então exercitar e fortalecer essa fé diariamente na missa; é a fé que importa, e é por causa dela que ele também foi instituído. Pois se duvidas, infliges a Deus a maior desonra e o consideras um mentiroso infiel; se não consegues crer, então faz um pedido neste sentido, conforme dissemos acima no outro sermão15.

19. Trata então de te dedicar a manter comunhão com todas as pessoas e de jamais excluir alguém por ódio ou ira, pois este sacramento da comunhão, do amor e da união não tolera discórdia e desunião. Deves deixar-te tocar pelas deficiências e necessidades dos outros como se fossem tuas próprias, e oferecer teus bens como se fossem deles, assim como Cristo age para contigo no sacramento. É isto o que significa ser transformado um no outro pelo amor, tornar-se de muitas partes um só pão e uma só bebida, abandonar a forma própria e assumir uma forma comum.

É por isso que difamadores, juízes arbitrários e violentos e os que desprezam as outras pessoas têm que receber a morte no sacramento, conforme escreve S. Paulo em 1 Co 11.29. Pois não procedem com seu próximo em conformidade com aquilo que buscam junto a Cristo e com o que mostra o sacramento; nada de bom desejam ao próximo, não se solidarizam com ele, não lhe dão a mesma assistência que pretendem receber de Cristo. Caem então na cegueira de nada mais saber fazer neste sacramento do que temer e honrar ao Cristo presente com suas rezas e devoções. Uma vez feito isto, pensam estar tudo cumprido a contento, quando na verdade Cristo deu o seu corpo para que fosse praticado o significado do sacramento ,a comunhão e a conduta no amor. Ademais, Cristo dá menos valor a seu próprio corpo natural do que a seu corpo espiritual, isto é, à comunhão de seus santos. O que lhe importa mais, particularmente neste sacramento, é que a fé em sua comunhão e na comunhão dos santos seja bem praticada e se torne forte em nós, e que, em conformidade com ela, também pratiquemos adequadamente a nossa comunhão. Eles não percebem essa intenção de Cristo; não obstante, vão lá diariamente, celebram e ouvem missa em sua devoção. Entretanto, permanecem um dia como o outro; sim, chegam até a ficar piores a cada dia que passa, mas nem mesmo se dão conta disso.

Por isso nota bem: é preciso que cuides mais do corpo espiritual do que do corpo natural de Cristo, e é mais necessária a fé no corpo espiritual do que no corpo natural. Pois o natural sem o espiritual nada adianta neste sacramento; é preciso que ocorra uma transformação e que ela seja exercitada através do amor.

20. Muitos há que, desconsiderando essa permuta do amor e da fé, se fiam em que a missa ou o sacramento sejam, como dizem, opus gratum opere operati16, ou seja, uma obra que, por si mesma, agrada a Deus, mesmo que não agradem as pessoas que a praticam. Concluem daí que é bom ter muitíssimas missas, mesmo que sejam celebradas de forma indigna, pois o prejuízo seria das pessoas que as rezam ou usam de modo indigno. A cada um deixo a sua opinião, mas essas fábulas não me agradam, pois, falando desse jeito, não haverá nenhuma criatura ou obra que, por si mesma, não agrade a Deus, conforme está escrito em Gn 1.31: "Deus olhou todas as suas obras, e todas lhe agradaram". Que frutos hão de vir do mau uso do pão, do vinho, do ouro e de quaisquer coisas boas, mesmo que em si mesmas agradem a Deus? Ora, a condenação é o que resulta disso. O mesmo vale aqui: quanto mais nobre o sacramento, tanto maior é o prejuízo que o seu abuso traz para toda a comunidade. Pois o sacramento não foi instituído em função de si mesmo, de modo a agradar a Deus, mas por nossa causa, para o usarmos corretamente, nele exercitarmos a fé e, por ele, nos tornarmos agradáveis a Deus. Se é apenas opus operatum17, ele nada efetua senão prejuízo em toda parte. Ele precisa tornar-se opus operantis18. Assim como pão e vinho, por mais que agradem a Deus em si mesmos, nada efetuam senão prejuízo caso deles não se fizer uso, da mesma forma não basta realizar o sacramento (isto é, opus operatum); ele também precisa ser usado na fé (isto é, opus operantis). E é de se temer que, por causa dessas perigosas interpretações, nos sejam tiradas a força e a virtude do sacramento e que a fé desapareça por completo mercê da falsa segurança do sacramento executado.

Tudo isto provém do fato de verem neste sacramento mais o corpo natural de Cristo do que a comunhão, o corpo espiritual. Cristo na cruz também foi uma obra executada que agradou a Deus, mas nela os judeus tropeçam até o dia de hoje, pois não a transformaram numa obra proveitosa na fé. Por isso, cuida que o sacramento seja para ti um opus operantis, isto é, uma obra proveitosa, e que ele agrade a Deus não por causa de sua essência, mas por causa da tua fé e do bom uso que dele fazes. A palavra de Deus também agrada a Deus em si mesma, mas é prejudicial para mim quando não agrada a Deus também dentro de mim. Em suma, essa conversa de "opus operatum, opus operantis" não passa de vãs palavras humanas, que mais atrapalham do que ajudam. E quem poderia enumerar todos os terríveis abusos e superstições que diariamente se multiplicam neste venerabilíssimo sacramento, alguns dos quais são tão espirituais e santos que quase poderiam seduzir um anjo? Em resumo: quem quiser reconhecer esses abusos, que se proponha o uso e a fé nesse sacramento acima descritos, isto é, seja uma alma aflita e faminta, a desejar sinceramente o amor, a ajuda e o apoio de toda a comunidade, de Cristo e de toda a cristandade, e não duvide que haverá de recebê-los na fé; em seguida, entre em comunhão com todos no mesmo amor. Quem não conceber e ordenar seu ouvir ou rezar a missa e seu receber o sacramento a partir disso, erra e não faz uso bem-aventurado deste sacramento. É por isso também que o mundo é assolado por pestilências, guerras e outros tormentos terríveis, pois com muitas missas apenas provocamos mais desgraças ainda.

21. Percebemos agora quão necessário é este sacramento para os que estão à morte ou precisam colocar em risco corpo e alma, para que não sejam deixados sozinhos nessa situação, mas sejam fortalecidos na comunidade de Cristo e de todos os santos. É por isso que Cristo também o instituiu e ofereceu em meio à angústia e ao perigo extremos de seus discípulos. Visto que todos nós estamos diariamente cercados por toda sorte de perigos e que, por fim, haveremos de morrer, devemos agradecer, amável e humildemente, com todas as nossas forças, ao misericordioso Deus por nos ter dado esse sinal gracioso. É com ele que Deus nos conduz e leva (se a ele nos atemos firmemente pela fé), através da morte e por entre todos os perigos, para si mesmo, para Cristo e todos os santos.

Por isso também é útil e necessário que o amor e a comunhão de Cristo e de todos os santos aconteçam ocultamente, de modo invisível e espiritual, e que nos seja dado apenas um sinal corporal, visível e exterior dos mesmos. É que se esse amor, comunhão e apoio fossem evidentes como a comunhão temporal das pessoas humanas, não seríamos fortalecidos nem exercitados no sentido de confiar nos bens invisíveis e eternos ou de desejá-los; antes, seríamos exercitados em confiar apenas nos bens temporais e visíveis, ficando tão habituados a eles que não abriríamos mão deles de bom grado e seguiríamos a Deus somente na medida em que nos precedessem coisas visíveis e palpáveis. Desta forma, seríamos impedidos de jamais chegar a Deus, pois, para chegarmos até ele, todas as coisas temporais e perceptíveis devem desaparecer e nós devemos nos desacostumar delas por completo.

Por isso, a missa e este sacramento são um sinal no qual nos exercitamos e habituamos a largar todo amor, ajuda e consolo visíveis, e a confiar no amor, auxílio e apoio invisíveis de Cristo e de seus santos. Pois a morte tira todas as coisas visíveis e nos aparta dos seres humanos e das coisas temporais, contra o que precisamos da ajuda das coisas invisíveis e eternas. Estas nos são apresentadas no sacramento e no sinal, ao qual nos atemos pela fé até que as recebamos também de modo perceptível e evidente.

Desta forma, o sacramento é para nós um vau, uma ponte, uma porta, uma embarcação e uma maca na qual e pela qual passamos deste mundo para a vida eterna. Por isso, tudo depende da fé, pois quem não crê se assemelha à pessoa que deve cruzar as águas, mas está tão desalentada que não confia na embarcação, tendo, assim, que ficar e não podendo jamais ser salva, porque não toma lugar nem quer fazer a travessia. É nisso que dão o apego às coisas sensíveis e a fé não exercitada, para a qual se torna amarga a travessia sobre o Jordão da morte. Ademais, o diabo ainda contribui cruelmente para que assim aconteça.

22. Isto ficou representado outrora em Josué 3.7ss. Depois de os filhos de Israel terem atravessado o Mar Vermelho sem molhar os pés – no que ficou indicado o Batismo -, assim atravessaram também o Jordão. Os sacerdotes, porém, ficaram parados com a arca no Jordão, de modo que a água abaixo deles escorreu embora, enquanto que a água acima deles elevou-se feito um monte, no que está indicado este sacramento. Ao pregarem a nós e nos darem este sacramento, os sacerdotes carregam e seguram a arca no Jordão, [isto é], Cristo e a comunhão de todos os santos em meio à morte ou ao perigo. Se cremos, as águas que estão debaixo de nós passam, isto é, as coisas temporais e visíveis nada nos infligem, mas fogem de nós. Porém aquelas que estão acima de nós elevam-se a uma grande altura. São elas as terríveis e atormentadoras imagens daquele mundo, [que vemos] na hora da morte [e que] nos assustam como se estivessem prontas a nos assaltar. Se, contudo, não nos importarmos com elas e passarmos de largo com uma fé firme, chegaremos incólumes e de pés secos na vida eterna.

Temos, portanto, dois sacramentos principais na Igreja, o Batismo e o Pão. O Batismo nos introduz a uma nova vida sobre a terra, o Pão nos conduz, passando pela morte, à vida eterna. E os dois estão indicados pelo Mar Vermelho e pelo Jordão, bem como pelas duas terras, situadas além e aquém do Jordão. Por isso o Senhor disse na Ceia: "Não beberei deste vinho até o dia em que o hei de beber, novo, com vocês no reino de meu Pai" [Mt 26.29]. É a tal ponto que este sacramento está voltado e ordenado para o fortalecimento contra a morte e para a entrada na vida eterna.

Concluindo: o fruto deste sacramento é comunhão e amor, pelos quais somos fortalecidos contra a morte e todo o mal, de modo que a comunhão seja em dois sentidos: por um lado, desfrutamos de Cristo e de todos os santos; por outro, deixamos que todos os cristãos também desfrutem de nós, no que eles e nós pudermos. Assim, o amor de si mesmo que busca seu próprio proveito, tendo sido extirpado por este sacramento, permite a entrada do amor que busca o proveito da comunidade e está voltado para todas as pessoas. Desta forma, constitui-se, através da transformação do amor, um único pão, uma só bebida, um só corpo, uma comunidade. É esta a autêntica unidade cristã e fraterna. Por isso, queremos ver agora como se relacionam e se coadunam com isto as irmandades, exteriormente brilhantes e tão numerosas hoje em dia.

[...]

5. Voltemos novamente ao sacramento. Visto que a comunhão cristã nunca esteve tão mal como atualmente, diminuindo a cada dia que passa, principalmente nos mais altos escalões, e visto que todos os lugares estão cheios de pecado e torpeza, não deves considerar quantas missas se realizam, ou quantas vezes é ministrado o sacramento, pois é por isto que as coisas ficam piores, em vez de melhorar. Considera, sito sim, o quanto tu e os outros crescem no significado e na fé desse sacramento; nisto é que está a melhoria. E quanto mais constatares que estás incorporado na comunhão de Cristo e de seus santos, tanto melhor a sua situação, isto é, se constatares que estás ficando forte na confiança em Cristo e em seus amados santos, de modo que tenhas certeza de que te amam e estão contigo em todas as aflições da vida e a morte. E, por outro lado, deve preocupar-te o declínio ou a queda de todos os cristãos e de toda a comunidade em cada cristão; teu amor deve ser compartilhado com qualquer um; deves estar disposto a ajudar todo mundo, a não odiar ninguém, a compadecer-te de todos e a interceder por eles. Vê, se a obra do sacramento andar bem, muitas vezes haverás de prantear, lamentar e chorar por causa do miserável estado da cristandade de hoje. Mas se não tiveres essa confiança em Cristo e em seus santos, e se não te atribular nem comover a miséria da cristandade e de cada próximo, acautela-te em relação ao todas as outras boas obras, pelas quais acreditas ser piedoso e alcançar a salvação. Com certeza serão pura hipocrisia, aparência e impostura, porque são desprovidas de amor e de comunhão, sem os quais nada existe de bom. Pois, summa summarum, plenitudo legis est dilectio19, o amor cumpre todos os mandamentos20. Amém.

[Posfácio na edição C:]

Sem qualquer necessidade, algumas pessoas rejeitaram este sermão pela razão de eu ter dito, no terceiro artigo, que me aprece bom que um concílio cristão determinasse que ambas as espécies sejam dadas a todos. Escancararam a boca a ponto de dizer que isto seria errado e escandaloso. Que Deus no céu tenha misericórdia de passarmos por uma época em que Cristo, o nobre Senhor e Deus, é insultado e blasfemado publicamente por seu próprio povo, ao ponto de se difamar sua ordem como sendo um erro. Teria sido suficiente deixá-lo21 como uma ordem permitida e que, se não se quisesse transformá-lo em mandamento, também não fosse considerado proibido ou errado. Mas peço que eles tenham a gentileza de dar uma boa olhada no segundo e terceiro artigos, nos quais afirmei claramente que uma espécie é suficiente. Fiquei sabendo ainda que meus escritos somente são rejeitados por aqueles que nunca os leram nem querem lê-los; a estes envio minhas saudações e informo que não me importo com seu parecer cego e injurioso. Enquanto Deus permitir que eu viva, não estarei disposto a tolerar que, de maneira tão atrevida, condenem e blasfemem Cristo, meu Senhor, chamando-o de mestre herético, escandaloso e sedicioso. Podem contar com isso.

(Martinho Lutero, in Obras SelecionadasOs primórdios – Escritos de 1517 a 1519, Eds. Sinodal/Ulbra/Concórdia, 2004, vol. 1, 2ª ed., pp. 425-444, tradução de Annemarie Höhn et al.)

Notas

1. Como nos dois sermões anteriores desta triologia.

2. Cf. p. 36, nota 8, p. 67, nota 46 e p. 401, nota 4.

3.Sermo 112, capítulo 5, in: Migne PL 38, 615

4. Na seção 1 de Um sermão sobre o santo, venerabilíssimo Sacramento do Batismo, p. 415.

5. Isto é, o perigo de ser derramado o vinho.

6.Zum sacrament gehen, no original.

7.Yn den ban thun, no original.

8.Um sermão sobre a excomunhão (Eyn Sermon von dem Bann, WA 6,63-75; a ser publicado no v. 2 desta coleção).

9. Lutero ainda inclui as obras supererogatórias dos santos, como é doutrina da Igreja de Roma.

10. Lutero usa aqui o termo "sacramento", como depois em Do cativeiro babilônico da Igreja, exclusivamente para os elementos físicos do sacramento: pão e vinho. Daí a comparação com outras passagens que não tratam da Santa Ceia.

11.Enarr. in psalm. XXI, in: Migne PL 36,178.

12. Cf. 1 Co 12.27.

13. Cf. Et 1.5ss

14. Cf. Mt 22.2ss

15.Um sermão sobre o Sacramento da Penitência, seção 18, pp. 409s

16. Cf. a introdução a este escrito.

17.Opus operatum (ação feita) é uma expressão usada na teologia romana desde o século XIII para garnatir o valor do sacramento como meio da graça. Os luteranos rejeitaram a expressão porque podia ser usada para designar a salvação pelas obras. Alexandre de Hales (m. 1245) sustentou que os sacramentos do Novo Testamento são sinais e causas da graça invisível, enquanto que os sacramentos da antiga aliança eram apenas sinais, e não causas. Tomás de Aquino (m. 1274) argumento que, se não fosse assim, a paixão de Cristo (simbolizada pelos sacramentos da antiga aliança) teria sido em vão. Assim os sacramentos da nova aliança agem ex opere operato, isto é, valem por si sós, sem qualquer ato adicional da alma. Tomás ainda pressupôs a fé como a causa do efeito do sacramento na pessoa. Boaventura (m. 1274) considerou a fé como suplemento ao opus operatum. Depois se concluiu que a fé é dispensável. Assim Duns Escoto (m. 1308) e Gabriel Biel (m. 1495) optaram não por uma fé positiva necessária, mas por uma passividade negativa: não deveria haver obstáculo à recepção. Assim se formaram as expressões: sine bono motu utentis, isto é, sem necessitar de bons movimentos anteriores (a fé), e non ponere obicem, isto é, sem haver oposição (pecados mortais, rejeição voluntária). Escoto e Biel parecem ter negado apenas que era necessário primeiro crer para dar valor aos sacramentos (como hoje pensam alguns grupos evangélicos), sem negar a necessidade da fé após ou com o recebimento dos sacramentos. Na época da Reforma a interpretação comum parece ter sido a de que bastava o opus operatum, a aplicação pura e simples do sacramento, para, através desta boa obra, receber a graça divina. Esta interpretação foi combatida por Lutero e pelas confissões luteranas, que sustentam a necessidade da fé como receptor da graça de Deus oferecida como benefício pelos sacramentos.

18.Opus operantis (ação do agente) é uma expressão usada para afirmar que as condições do agente afetam a eficácia da ação. Assim os donatistas afirmavam que os sacramentos administrados por alguém que merecia ser excomungado não eram válidos. Logo, se dizia que a validade do sacramento dependia da fé de quem o administrava. Lutero usa a expressão num outro sentido, afirmando que o sacramento só é eficaz quando a pessoa que o recebe faz bom uso dele pela fé. No entanto, Lutero não defende o uso da expressão, mas julga que deve ser evitada para não confundir.

19. Resumindo tudo: o amor é a plenitude da lei.

20. Cf. Rm 13.10.

21. Sc. A celebração sob ambas as espécies.

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