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Bula Unigênitus de Clemente VI (1343)

Escrito por  Clemente VI

Corpus Iuris Canonici (Friedberg), II. 1304.

Kidd, Documents of the Continental Reformation, No. I

[A prática abusiva da venda das indulgências revoltou a Lutero. O dominicano João Tetzel exercia este comércio para financiar a construção da basílica de S. Pedro, em Roma. A teoria sobre a qual se baseavam as indulgências está definida nesta bula que aprovou autoritativamente as doutrinas que tinham sido desenvolvidas pelos escolásticos.]

O unigênito Filho de Deus se dignou descer do seio do Pai para o ventre de sua mãe, na qual e da qual, por uma união inefável, uniu a substância de nossa natureza mortal à sua divindade, numa unidade de pessoa, unindo o que era permanente com o que era transitório, assumindo-o a fim de poder resgatar o homem decaído e realizar por ele a satisfação ao Deus Pai. Pois, quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu próprio Filho, gerado sob a lei, nascido de mulher, para redimir os que estavam debaixo da lei, a fim de poderem receber a adoção de filhos. Pois, tendo ele sido feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção (1Co 1:30), não pelo sangue de touros ou cabritos, mas pelo seu próprio sangue, entrou uma vez por todas no lugar santo, tendo obtido redenção eterna (Hb 9:12). Pois não foi com coisas corruptíveis, como ouro e prata, que ele nos resgatou, mas com o precioso sangue de si mesmo, cordeiro sem mancha ou defeito (1Pe 1:18), sangue precioso que sabemos ter ele derramado como vítima inocente sobre o altar da cruz; não simplesmente uma gota de sangue (embora, por sua união com o Verbo, isto teria sido o suficiente para a redenção de todo o gênero humano), mas um dilúvio abundante, tanto que da planta dos pés até o alto da cabeça não se achou nele lugar são (Is 1:6). E (a fim de que a misericórdia de tal efusão não se tornasse supérflua, inútil e vã) o Pai Santo constituiu com ele um grande tesouro para a Igreja Militante, querendo enriquecer seus filhos com tal tesouro, de modo que os homens o tivessem em reservatório infinito, para que os que dele se aproveitam sejam feitos participantes da amizade de Deus. Ora, tal tesouro não está escondido numa toalha, nem enterrado num campo, mas confiou-o aos fiéis para ser administrado fielmente por meio do bem-aventurado Pedro, portador das chaves do céu, e de seus sucessores como vigários na terra, para causas convenientes e razoáveis, quer para remissão total quer para remissão parcial do castigo devido a pecados temporais [ou castigo temporal devido aos pecados], quer em geral quer em particular – como eles entenderem que seja útil diante de Deus – e para ser aplicado misericordiosamente àqueles que são verdadeiros penitentes e confessantes. Sabemos que essa riqueza do tesouro recebeu um incremento dos méritos da bendita mãe de Deus e de todos os eleitos, do primeiro homem até o último; e não se deve temer que esse tesouro diminua ou seja afetado de qualquer modo, tanto por causa dos méritos infinitos de Cristo (como já ficou dito), como porque mais e mais homens são atraídos à justiça como resultado de sua aplicação e assim sempre mais aumenta o total dos méritos...

Bula papal

Documentos da igreja cristãBETTENSON, H., Documentos da Igreja Cristã, editora ASTE, páginas 277,278.

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