• Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.

    Mateus 5:44,45

  • Disse-lhes ele: Por causa da vossa pouca fé; pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível

    .

    Mateus 17:20

  • Qual de vós é o homem que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, e não vai após a perdida até que a encontre?

    Lucas 15:4

  • Então ele te dará chuva para a tua semente, com que semeares a terra, e trigo como produto da terra, o qual será pingue e abundante. Naquele dia o teu gado pastará em largos pastos.

    Isaías 30:23

  • As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem;

    João 10:27

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Verso do dia

A perseguição japonesa ao catolicismo e os kakure kirishitan

Escrito por  Gustavo
Monumento aos 26 mártires, em Nagasaki

A noite caiu. A luz rubra da fogueira dos guardas podia ser vista tenuemente mesmo de nossa cabana na montanha. Enquanto isso, o povo de Tomogi se reunia na praia e perscrutava o mar escuro. O mar e o céu estavam tão negros que ninguém sabia onde Mokichi e Ichizo se achavam. Tampouco sabiam se os dois estavam vivos ou mortos. Todos, em lágrimas, oravam intimamente. E então, misturado ao som das ondas, ouviram o que parecia ser a voz de Mokichi. Fosse para dizer às pessoas que sua vida ainda não se esvaíra, fosse para fortalecer o ânimo próprio, o moço entoou com voz débil e entrecortada um hino cristão:

Estamos a caminho, estamos a caminho...

Estamos a caminho do templo do Paraíso...

Do templo do Paraíso...

Do grande templo...1


Há cerca de 400 anos o Japão vivenciaria uma parte sombria de sua história, hoje desconhecida por muitos. Foi este período da história japonesa que inspirou o escritor Shusaku Endo a escrever o livro O Silêncio, de onde se retirou o trecho acima. Trata-se do período de tempo, entre 1637 e 1850, onde os governantes japoneses buscaram eliminar completamente o catolicismo no Japão. E apesar de empreender uma busca meticulosa, nunca o Japão se viu livre do catolicismo, que sobreviveria secretamente na ilha. Por que houve tal perseguição neste distante país, e como ele sobreviveu? É esta história, ou parte dela, que pretendemos contar aqui.

Nossa história começa anos antes, em 1540, ano que o papa Paulo III aprova a Sociedade de Jesus. O rei João III de Portugal tomaria conhecimento do zelo e dos ideais desta nova ordem, solicitando então que seis jesuítas fossem enviados para suas colônias no Oriente. No entanto, em abril de 1541, partiria de Portugal apenas um missionário: Francisco Xavier. Ele se tornaria muito conhecido por causa do número de conversões, não poupando esforços de visitar grande quantidade de territórios. E por este mesmo motivo ele se tornaria o primeiro missionário em terras japonesas, como nos conta Justo González em sua História do Movimento Missionário:

Em 1547, Xavier partiu das ilhas Molucas com o propósito de regressar à Índia, onde sua presença era necessária para supervisionar e organizar o trabalho dos jesuítas da região. Ao se deter em Malaca, conheceu três japoneses e começou a sonhar com a possibilidade de empreender um trabalho missionário no Japão. No entanto, prosseguiu viagem à Índia, onde novamente visitou as zonas de Cochin, Pesqueira e a própria Goa. Em todos esses lugares, dedicou-se a reorganizar o trabalho dos jesuítas, o qual estava a seu cargo. No ano 1549, os missionários que trabalhavam sob a direção de Francisco Xavier eram mais de trinta.

Por fim, Xavier sentiu-se livre para empreender a missão que havia sonhado no Japão. Acompanhado dos três japoneses que havia conhecido em Malaca e de dois jesuítas, empreendeu uma missão ao Japão e esteve nesse país mais de dois anos. Ao se retirar, tudo parecia indicar que a igreja nascente chegaria a ser uma das mais notáveis do Oriente. Xavier não podia supor que, pouco depois de sua morte, por razões não de todo claras, haveria de se desencadear nesse país uma perseguição tal, que o cristianismo desapareceria quase por completo.2

Não é fácil compreender os motivos desta perseguição após a morte de Francisco Xavier. É certo que não se tratava apenas de motivos religiosos. O cristianismo só foi aceito em terras japonesas por que estes tinham outras motivações, como nos conta David Murray em seu livro Japan:

O desejo pelo comércio com os portugueses parece ter sido a principal razão para a pronta recepção dos missionários. E quando os navios mercadores portugueses recorreram a Hirado, uma ilha na costa de Kyushu ao invés da menos acessível Kagoshima, o príncipe de Kagoshima se voltou contra os missionários e os proibiu de pregar e fazer proselitismo3.

O que pareceu vantajoso em um primeiro instante, passou a ser visto com desconfiança depois. A conquista das Filipinas pelos espanhóis contribuiu para isto. Não demoraria muito para que os governantes japoneses vinculassem o catolicismo com as ambições colonialistas de portugueses e espanhóis. Assim, em 1587, Taiko Sama emitiu um edito expulsando todos os professores de religiões estrangeiras do Japão. David Murray explica como suas motivações foram puramente políticas:

Mesmo em várias províncias do Japão onde os jesuítas alcançaram a ascendência, as medidas mais violentas foram tomadas pelos príncipes cristãos para compelir todos os seus súditos a seguir seu próprio exemplo e adotar a fé cristã. Takeyama, a quem os padres jesuítas designam como Justo Ucondono, conduziu em seu território em Akashi um sistema de amarga perseguição. Ele deu a seus súditos a opção de se tornar cristãos ou deixar seu território. Konishi Yukinaga, que recebeu parte da província de Higo como seu feudo depois da guerra coreana, impôs com grande persistência a aceitação da fé cristã, e privou os sacerdotes budistas de seus templos e suas terras. Os príncipes de Omura e Arima, e até certo ponto os príncipes de Bungo, seguiram o conselho dos padres jesuítas ao usar sua autoridade para avançar a causa do cristianismo. Os padres dificilmente reclamariam de ter o sistema de intolerância praticado contra eles, o qual, quando as circunstâncias eram favoráveis, eles aconselhariam aplicar a seus oponentes. Foi esta impossibilidade de assegurar a paz e harmonia e a suspeita de ambição territorial da Espanha e Portugal que levaram Taiko Sama à conclusão que os mestres religiosos estrangeiros e a fé que eles propagaram de forma tão bem sucedida eram uma fonte de perigo iminente para seu país. Para ele era puramente uma questão política. Ele não tinha profundas impressões que o levaram a preferir os preceitos da antiga fé japonesa àqueles do cristianismo. Estes sistemas não poderiam aparentemente viver juntos, e lhe pareceu que a forma mais segura e mais sensível era extinguir a mais fraca e mais perigosa antes que ela se tornasse muito forte. Daí começou a política de repressão e expulsão que seu sucessor relutantemente continuou4.

O sucessor de Taiko Sama, Ieyasu, não incomodaria os cristãos nos primeiros anos de seu reinado. Por isto se pensou que ele era favorável ao cristianismo, o que logo seria desmentido, quando em 1606 ele restabeleceria a perseguição aos cristãos. Com o passar dos anos, sua desconfiança aumentaria, chegando a chamar o cristianismo de “escola falsa e corrupta”. Assim Ieyasu chegou à mesma convicção de Taiko Sama de que para preservar a segurança de seu país, ele deveria expulsar todos os missionários cristãos. Em 1614 ele promulgou um edito que expulsava do Japão todos os membros de ordens monásticas, japoneses ou europeus. Ele também ordenava a demolição de igrejas e a desconversão de japoneses.

Depois da deportação de convertidos, seguiram medidas mais enérgicas para erradicar o cristianismo do Japão. Estabeleceu-se um serviço especial de busca por cristãos, chamado de Investigação Cristã, que caçava e punia com extremo rigor qualquer convertido ao cristianismo. Havia um sistema de recompensas, como descreve David Murray:

Recompensas eram oferecidas por informações envolvendo cristãos de toda posição e nível, mesmo de pais contra seus filhos e de filhos contra seus pais. Quando esta prática começou é difícil de dizer, mas que recompensas foram usadas bem cedo é evidente pela republicação de um edito em 1655, onde é declarado que anteriormente uma recompensa de 200 peças de prata eram pagas por denunciar um padre (bateren) e 100 por denunciar um irmão (iruman); mas a partir desta data as recompensas seriam: por denunciar um padre, 300 peças; um irmão, 200 peças e um catequista, 50 peças. Em 1711 esta tarifa foi aumentada, por denunciar um padre para 500 peças, um irmão para 300 peças e um catequista para 100 peças; também por denunciar uma pessoa que, tendo apostatado, retornou para a fé, 300 peças. Estes editos contra o cristianismo foram fixados em murais até o ano de 18685.

As perseguições alcançaram sua forma mais cruel a partir de 1616, com a morte de Ieyasu, e a posse de seu sucessor. Os relatos de testemunhas nos contam que cristãos eram mortos na frente uns dos outros, eram arremessados do topo de precipícios, enterrados vivos, partidos ao meio por touros. Alguns eram amarrados dentro de sacos de arroz, amontoados e depois queimados vivos. Outros ficavam em gaiolas onde passavam fome com comida diante deles. Outros ainda eram torturados com agulhas. Todos estes relatos eram contados tanto por jesuítas quanto pelos próprios japoneses. Apesar de todos estes esforços, muitos japoneses abraçavam o cristianismo com entusiasmo. Por isto os métodos de tortura foram ficando cada vez mais requintados, chegando ao método mais cruel, chamado de o Suplício do Poço. O livro O Silêncio traz um prefácio de William Johnston, da universidade de Sophia em Tóquio, que explica como era esta forma de tortura:

Mas o xogunato Tokugawa não demorou a ver que tal “martírio glorioso” deixava de atender ao objetivo desejado; e pouco a pouco, a morte se viu precedida da tortura, num esforço extraordinário para fazer mártires apostatarem. Entre essas torturas, estava o ana-tsurushi, o suplício do poço, que logo se tornaria o modo mais eficaz de levar à apostasia: A vítima era toda amarrada, bem apertado, até a altura do peito (uma das mãos ficava livre para que pudesse dar o sinal da abjuração). Depois, num patíbulo, era pendurada de cabeça para baixo dentro de um poço que, em geral, continha excremento e outras imundícies. A beira do poço ficava alinhada com os joelhos da vítima. Para dar alguma vazão ao sangue, a testa era cortada de leve, à faca. Alguns dos mártires mais fortes sobreviveram mais de uma semana naquela posição; a maioria, porém, não viveu mais que um ou dois dias6.

Na mesma época surgiria a fumi-e, uma espécie de testador de fé cristã. Era uma cerimônia conduzida pelo chamado kirishitan bugyo (inquisitor cristão), usando uma imagem de Cristo feita em madeira, mais tarde de bronze. A cerimônia consistia em convocar uma família inteira e fazer com que cada membro da casa pisasse na imagem (até mesmo bebês que ainda não andassem). Aqueles que se recusassem a fazer isto eram presos e mandados para a tortura. Tais cerimônias eram conduzidas em cidades inteiras a fim de descobrir cristãos.

O cerco ao castelo de Shimabara

Muitos casos de tortura se seguiriam até que as perseguições eclodissem na revolta de Shimabara, o desfecho desta história dramática. Esta rebelião, no entanto, não foi provocada apenas por cristãos. As origens desta revolta podem ser traçadas até o desgoverno do daimyo de Arima. O antigo daimyo teria se mudado da província por ordem do shogun, deixando seus empregados para trás. O novo daimyo, no entanto, trouxe seus empregados para a província. Os antigos empregados tiveram que deixar seus lugares para os novos, e assim foram forçados a buscar ocupação como agricultores, algo que os samurai não estavam muito acostumados a fazer. Além da nova e precária situação, estes foram ainda submetidos a taxas altamente abusivas por parte do daimyo, sendo torturados e mortos caso não pudessem pagá-las. Tal atitude cruel fez crescer o ódio pelo daimyo, que gerou a revolta quando o filho deste continuou sua política de tirania.

Os cristãos, por muito tempo perseguidos pelas autoridades japonesas, viram nesta revolta a oportunidade que precisavam para obter um pouco de liberdade. E assim se uniram aos camponeses, começando na vila de Oyei em outubro de 1637. Liderados por um ronin7 chamado Ashizuka os rebeldes conseguiram ocupar o castelo de Shimabara, se apoderando de seus mantimentos e armamentos.

Sem poder conter a revolta que crescia a cada dia, os governantes apelaram para o shogun, Iemitsu, que herdou os preconceitos dos seus ancestrais com relação aos estrangeiros. Ele acreditaria que tais revoltas fossem instigadas e ajudadas por eles. Em dezembro de 1637 enviaria Itakura Naizen como comandante, mas depois de várias tentativas, nenhum sucesso foi obtido.

Neste ponto da história acontece algo que levou a uma longa discussão e a um distanciamento ainda maior entre portugueses e holandeses. Em 11 de janeiro de 1638 os japoneses pediram aos holandeses em Hirado suprimento de pólvora, que seria atendido juntamente com um pedido de desculpas por não haver o produto em maior quantidade. Mais tarde, no dia 15 de fevereiro, um pedido foi feito para se usar canhões, que foram enviados ao campo de batalha. Um navio também foi enviado para ajudar o exército japonês. A ajuda holandesa durou até o dia 12 de março, quando os japoneses os dispensaram. Parece que eles não acharam digno recorrer à ajuda estrangeira em um momento como aquele. Há a notícia que até mesmo os rebeldes chamaram a atenção para isto através de uma carta que conseguiram entregar com a ajuda de uma flecha.

O castelo foi tomado finalmente no dia 12 de abril. Por ordens superiores, todos os ocupantes do castelo foram mortos, sobrando apenas um antigo artesão. Um dos líderes, Shiro Tokisada, foi decapitado, tendo sua cabeça exposta por sete dias na grande pilastra em Nagasaki. Ao daimyo de Arima cuja má conduta deu início à rebelião, permitiu-se que retirasse a própria vida.

Estátua de Amakusa Shiro no castelo Shimabara

Este teria sido o golpe final em qualquer tentativa missionária no Japão. Desconfiados de que a revolta tivesse se originado por causa dos portugueses, os governantes japoneses proibiram definitivamente qualquer missão em solo japonês. Os cristãos que sobraram no arquipélago viveram escondidos, por isto sendo chamados de kakure kirishitan (cristãos escondidos). Não se sabe muito como eles viveram, embora tenhamos ainda hoje algumas amostras de como conseguiam esconder seus objetos de culto.

Imagem de Maria disfarçada de Kannon Outra imagem de Maria disfarçada de Kannon

Por fim, com a abertura do Japão aos povos ocidentais, estes cristãos voltaram a ter contato com os cristãos do resto do mundo. Justo González nos conta mais como foi isto:

Como era de se esperar, pelo fato de as missões católicas começarem por meio de um tratado entre Japão e França, essas missões foram postas sob a supervisão da Sociedade de Missões Estrangeiras de Paris. No ano de 1859, chegaram os primeiros missionários, que se estabeleceram no que hoje é a cidade de Tóquio. Poucos anos depois, descobriram que ainda existiam 100.000 cristãos na região de Nagasaki, os quais parecem ser resultado das antigas missões católicas no tempo de Francisco Xavier. Os missionários franceses estabeleceram contato com eles e conseguiram que aproximadamente a décima parte estabelecesse relações com a igreja católica. O restante continuou afastado das igrejas ocidentais até que mais tarde se uniram às diversas igrejas que entravam na região, algumas delas protestantes.8

Sem entrar nos méritos da discussão entre catolicismo e protestantismo, esta história nos mostra em primeiro lugar a perseverança daqueles que foram perseguidos. Mesmo tendo se aprofundado pouco em sua nova fé, eles estavam dispostos a morrer por ela se preciso. Mas acima de tudo, esta história nos mostra como os esforços missionários de qualquer natureza podem ser bastante prejudicados por segundas intenções, como interesses políticos e comerciais. Parte da desconfiança japonesa, no princípio, se devia também ao que portugueses falavam de espanhóis e ao que espanhóis falavam de portugueses às autoridades japonesas. Mais tarde, ingleses e holandeses fariam o mesmo, tentando minar a credibilidade destes primeiros para tentar acabar com o monopólio comercial deles. Não podemos saber se o que foi dito era verdadeiro ou era apenas calúnias. O fato é que tais conversas prejudicaram muito as missões em solo japonês.

Imagem de duas fumi-e usadas pelas autoridade japonesas Representação de uma cerimônia da fumi-e

Notas

1. Shusaku Endo, O Silêncio, pág. 99, Editora Planeta Literário.

1. Justo L. González, História do Movimento Missionário, Editora Hagnos, pág. 192.

1. David Murray, Japan, pág. 142.

1. David Murray, Japan, págs. 194 e 195.

1. David Murray, Japan, pág. 199.

1. Shusaku Endo, O Silêncio, págs. 17 e 18, Editora Planeta Literário.

1. Um ronin era um empregado que abandonou o serviço a seu mestre, sendo seu próprio mestre.

1. Justo L. González, História do Movimento Missionário, Editora Hagnos, págs. 294 e 295.

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